Diz-nos o que leste…

“Os Níveis da Vida ”  | Julian Barnes.

Poderá não ser o seu livro de eleição ou referência, nem tudo tem que ser uma obra-prima, nem tudo é água cristalina se é que ainda a há? Outros títulos tem Julian Barnes que o tornaram um dos mais reconhecidos escritores da “nova” geração de escritores britânicos contemporâneos.

É um caso de estudo? Sim, certamente. E que importa ler: O Papagaio de Flaubert; O Sentido do Fim; O homem do casaco vermelho; O Nada a Temer e todos os outros? Claro que sim. A sua prosa elegante faz-nos viajar entre a ficção e a não-ficção, mistura fatos históricos e verdades da sua vida e de outras personagens que inventa em cenários imaginários e reais onde a arte, um quadro ou uma fotografia são, por vezes, motivo para uma história que nos surpreende e cativa.

Talvez somente e após a leitura de alguns destes livros possamos compreender o porquê da sua visibilidade e interesse internacional e assim descobrimos a sua mestria no articular com minúcia as palavras que um dia gostaríamos de dizer e que em algum momento gostávamos de ter conseguido pensar, ou mesmo escrever.

A sua escrita é tudo menos “simples”, talvez a sua “suavidade” nos surpreenda pois é algo a que não estamos muito habituados; interseta tempos. Por vezes parecem registos visuais em anamorfoses, com fusões e recombinações de narrativas que ocorrem no seu modo exclusivo de descrever o mundo e por isso é diferente… por vezes somos apanhados de surpresa, não estamos preparados para as inscrições para os tempos que nos convoca e para os autores, tantos autores que nos vêm aos seus textos lembrar e provocar dúvidas e outros interesses… provocações e olhares desviantes.

É complexo Barnes, é bastante sedutor Barnes, é sempre improvável e muito mais… elegante decifrador, enigmático, timoneiro de biografias inventadas e reais, Barnes tem na sua escrita essa valia essa valentia que poucos autores hoje assumem… falando de si… sem receio do que cruzam, da ficção e da realidade, da verdade e da mentira do passado e do presente do retrato e das suas possíveis representações…. Barnes é um esteta, pintor de tempos, emoções e de enredos que nos surpreende e nos faz por vezes sorrir outras chorar… domina-nos com as palavras que usa e com as suas motivações, a suas dúvidas tornando-nos cúmplices, com as sucessivas aproximações ao detalhe, falando de nós como se soubesse de cor o que sentimos, o que pensamos ou até os nomes dos nossos amigos de infância.

Mas não é de O Papagaio de Flaubert, nem de O Sentido do fim, nem mesmo de O Homem do casaco vermelho que são casos sérios de literatura contemporânea mas de um outro livro que importa conhecer e que, ao andar a ler, sempre me inspira, sugere e alimenta: O livro Os Níveis da Vida.

Muitos projetos, obras, desenhos, aulas, conferências, candidaturas e até exposições ou artigos científicos foram pensados tendo por base muitas destas ideias que Barnes lança neste livro, como quebra-cabeças, armadilhas para o pensamento e para a astúcia do leitor que quer saber, que se quer deixar apanhar pelos sinais e não apenas ler…

O livro Os Níveis da Vida é, ao contrário de outros que referi, “fácil” de ler… e o que será isto de ser fácil… pergunto-me? Mas é.

A narrativa é sequencial, quase cronológica nas suas três abordagens que constituem os quase três capítulos do livro e por vezes toca na expressão novelista na medida em que há uma continuidade temática de capítulo para capítulo de acontecimentos para acontecimentos. Diria que o final da sua sensível, culta e tão inteligente abordagem… se compreende o início e os distintos processos de lidar com certas provocações que a vida nos oferece e nem sempre estamos preparados… talvez não devamos estar preparados e que apesar de muitas coisas não serem “matematicamente possíveis… emocionalmente são” … como ele próprio nos diz, lembrando uma velha pergunta se o que importa é a “matemática se a arte teatral? Que Thomas Bernhard em “Minetti, retrato de um artista quando velho” também coloca, morrendo depois, só, ao relento, abandonado num banco, coberto de neve, sem saber a resposta.

Foi escrito após a morte da sua mulher, também sua agente e sua editora, revisora e tudo o tanto que as mulheres sabem, conseguem e demonstram ser e fazer… saído ou permanecendo numa crise de luto a que dedica o terceiro capítulo, descreve os processo e as crises de um luto intenso, profundo, quase mais próximo de depressão, tristeza contagiante. O livro começa neste registo, não é autobiográfico nem pretende verter as suas mágoas para a escrita, nem se vinga no leitor as incompreensões que terá de alguma forma vivido ou sentido enquanto suspendia a vida… o viver.

O fim… é diferente. Alguns dos seus fantasmas, paixões, certezas e posteriores incertezas são revisitados como terapias não para si, mas para nós leitores que, à sua semelhança, também sabemos as dificuldades da perda, da morte, seja ela qual for… e que bem que Barnes nos ensina a “Morte”… essa morte que já lemos em outros autores, e que Barnes nos lembra com sentimento de fé, de invencibilidade e de continuidade… através do amor, sublinhando no entanto que “Todas as histórias de amor são potenciais histórias de dor”.

O livro Os Níveis da Vida é comovente, página a página é um crescendo de emoção que se adensa na sua expressão pessoal e biográfica, não por ser ele – Barnes, nem a sua mulher que não conhecemos, mas por sermos nós que Barnes faz o favor de encarnar e de se oferecer como personagem para nos compreendermos e conhecermos melhor. E comovemo-nos, facilmente ao lermos linha a linha, parágrafo a parágrafo… por vezes não mais do que uma linha e já lemos muito… parece exagero. Pois parece… Mas não é. Barnes sem querer ferir, faz-nos ajoelhar ao seu dom único de emocionar e segredar o que nos vai na alma. O que lhe vai na mente quando fala da morte, do amor, do luto, da perda e da sua mulher: O coração da minha vida a vida do meu coração.

Talvez por isso tenha pensado por fim à sua vida, morrendo com ela, morrendo nela… e superando-se depois através dela. Tudo é novo neste seu olhar sobre a morte e a necessidade de celebrar a vida de alguém e por isso é recompensador toda a viagem que Barnes nos desenha por entre as diversas histórias de amor, de perda, de personagens como Nadar e Sarah Bernard em improváveis viagens de balão. …

Como sempre nos habituou, Barnes joga com os diferentes níveis da realidade a que estamos sujeitos enquanto vivos, por isso podemos pensar este livro como um processo de reflexão sobre a vida, a morte, a paixão e os processos de perda e dor e de procura de significado e propósito da vida que escolhemos e que nos é imposta… para a recusarmos, aceitarmos ou nos resignarmos…

Dizer que “juntamos duas coisas que ainda não se tinham juntado. E o mundo transforma-se. Nesse momento as pessoas podem não dar por nada, mas não importa. De qualquer maneira o mundo transforma-se” é dizer arrebatamento, consciência e fina normalidade sobre o que de facto importa… transformar o mundo e os complexos mundos que são a nossas vidas.

É um livro brilhante na oferta e generosidade de situações divergentes que se tocam num objetivo comum, o amor, a perda, a suspensão, a profundidade e a continuidade da vida que sem nós… também existe.

Isso é-nos dito em três narrativas diferentes que compõe os “capítulos” do livro:

A primeira sobre a morte e o modo como as pessoas reagem e superam, a morte com outras crenças e com outros sentidos para a dor e para a existência: a segunda relata biograficamente a ligação apaixonada do fotógrafo francês Félix Nadar por Sarah Bernhardt (1845-1923), extravagante atriz e muito famosa do séc. XIX e com quem nunca acabaria por casar… apesar de tudo e da sua capacidade de fotografar e fazer voar por vezes para além do possível. Por fim da sua tentativa de encontrar significado para a vida após a morte do seu coração.

Os Níveis da Vida é emocionalmente exigente e requer maturidade, experiência em perdas e em dor… até intuirmos que se juntarmos mesmo duas coisas diferentes podemos mudar a nossa vida para sempre e também o próprio mundo.

É este o tema, a lição, a verdade ou revelação que Barnes nos ensina e que lhe agradeço as palavras para além da literatura e a sua extrema sensibilidade.

Importa pois olhar a diferença, não para distanciar ou desagregar, mas para criar novas realidades, superar, juntar, subverter e procurar fazer um mundo novo.

É de esperança e de mudança positiva que acaba o livro, apesar da dor, da perda, da solidão e da morte que sempre fala neste capítulo intitulado “A Perda de Profundidade”.

A mensagem é clara, juntemos pois as diferenças saibamos respeitá-las, cuidá-las e por vezes alimentá-las para que, com elas e através delas, construamos um mundo novo que naturalmente será distinto, aberto a outras realidades e que nos fará seguramente diferentes… só assim a nossa vida, o nosso mundo, mudará para melhor.

Julian Barnes em Os Níveis da Vida fala do dom das nossas vidas, como se as vidas fossem mesmo nossas. E se calhar… são mesmo.

Nuno Lacerda Lopes

“Os Níveis da Vida ”  | Julian Barnes.

Poderá não ser o seu livro de eleição ou referência, nem tudo tem que ser uma obra-prima, nem tudo é água cristalina se é que ainda a há? Outros títulos tem Julian Barnes que o tornaram um dos mais reconhecidos escritores da “nova” geração de escritores britânicos contemporâneos.

É um caso de estudo? Sim, certamente. E que importa ler: O Papagaio de Flaubert; O Sentido do Fim; O homem do casaco vermelho; O Nada a Temer e todos os outros? Claro que sim. A sua prosa elegante faz-nos viajar entre a ficção e a não-ficção, mistura fatos históricos e verdades da sua vida e de outras personagens que inventa em cenários imaginários e reais onde a arte, um quadro ou uma fotografia são, por vezes, motivo para uma história que nos surpreende e cativa.

Talvez somente e após a leitura de alguns destes livros possamos compreender o porquê da sua visibilidade e interesse internacional e assim descobrimos a sua mestria no articular com minúcia as palavras que um dia gostaríamos de dizer e que em algum momento gostávamos de ter conseguido pensar, ou mesmo escrever.

A sua escrita é tudo menos “simples”, talvez a sua “suavidade” nos surpreenda pois é algo a que não estamos muito habituados; interseta tempos. Por vezes parecem registos visuais em anamorfoses, com fusões e recombinações de narrativas que ocorrem no seu modo exclusivo de descrever o mundo e por isso é diferente… por vezes somos apanhados de surpresa, não estamos preparados para as inscrições para os tempos que nos convoca e para os autores, tantos autores que nos vêm aos seus textos lembrar e provocar dúvidas e outros interesses… provocações e olhares desviantes.

É complexo Barnes, é bastante sedutor Barnes, é sempre improvável e muito mais… elegante decifrador, enigmático, timoneiro de biografias inventadas e reais, Barnes tem na sua escrita essa valia essa valentia que poucos autores hoje assumem… falando de si… sem receio do que cruzam, da ficção e da realidade, da verdade e da mentira do passado e do presente do retrato e das suas possíveis representações…. Barnes é um esteta, pintor de tempos, emoções e de enredos que nos surpreende e nos faz por vezes sorrir outras chorar… domina-nos com as palavras que usa e com as suas motivações, a suas dúvidas tornando-nos cúmplices, com as sucessivas aproximações ao detalhe, falando de nós como se soubesse de cor o que sentimos, o que pensamos ou até os nomes dos nossos amigos de infância.

Mas não é de O Papagaio de Flaubert, nem de O Sentido do fim, nem mesmo de O Homem do casaco vermelho que são casos sérios de literatura contemporânea mas de um outro livro que importa conhecer e que, ao andar a ler, sempre me inspira, sugere e alimenta: O livro Os Níveis da Vida.

Muitos projetos, obras, desenhos, aulas, conferências, candidaturas e até exposições ou artigos científicos foram pensados tendo por base muitas destas ideias que Barnes lança neste livro, como quebra-cabeças, armadilhas para o pensamento e para a astúcia do leitor que quer saber, que se quer deixar apanhar pelos sinais e não apenas ler…

O livro Os Níveis da Vida é, ao contrário de outros que referi, “fácil” de ler… e o que será isto de ser fácil… pergunto-me? Mas é.

A narrativa é sequencial, quase cronológica nas suas três abordagens que constituem os quase três capítulos do livro e por vezes toca na expressão novelista na medida em que há uma continuidade temática de capítulo para capítulo de acontecimentos para acontecimentos. Diria que o final da sua sensível, culta e tão inteligente abordagem… se compreende o início e os distintos processos de lidar com certas provocações que a vida nos oferece e nem sempre estamos preparados… talvez não devamos estar preparados e que apesar de muitas coisas não serem “matematicamente possíveis… emocionalmente são” … como ele próprio nos diz, lembrando uma velha pergunta se o que importa é a “matemática se a arte teatral? Que Thomas Bernhard em “Minetti, retrato de um artista quando velho” também coloca, morrendo depois, só, ao relento, abandonado num banco, coberto de neve, sem saber a resposta.

Foi escrito após a morte da sua mulher, também sua agente e sua editora, revisora e tudo o tanto que as mulheres sabem, conseguem e demonstram ser e fazer… saído ou permanecendo numa crise de luto a que dedica o terceiro capítulo, descreve os processo e as crises de um luto intenso, profundo, quase mais próximo de depressão, tristeza contagiante. O livro começa neste registo, não é autobiográfico nem pretende verter as suas mágoas para a escrita, nem se vinga no leitor as incompreensões que terá de alguma forma vivido ou sentido enquanto suspendia a vida… o viver.

O fim… é diferente. Alguns dos seus fantasmas, paixões, certezas e posteriores incertezas são revisitados como terapias não para si, mas para nós leitores que, à sua semelhança, também sabemos as dificuldades da perda, da morte, seja ela qual for… e que bem que Barnes nos ensina a “Morte”… essa morte que já lemos em outros autores, e que Barnes nos lembra com sentimento de fé, de invencibilidade e de continuidade… através do amor, sublinhando no entanto que “Todas as histórias de amor são potenciais histórias de dor”.

O livro Os Níveis da Vida é comovente, página a página é um crescendo de emoção que se adensa na sua expressão pessoal e biográfica, não por ser ele – Barnes, nem a sua mulher que não conhecemos, mas por sermos nós que Barnes faz o favor de encarnar e de se oferecer como personagem para nos compreendermos e conhecermos melhor. E comovemo-nos, facilmente ao lermos linha a linha, parágrafo a parágrafo… por vezes não mais do que uma linha e já lemos muito… parece exagero. Pois parece… Mas não é. Barnes sem querer ferir, faz-nos ajoelhar ao seu dom único de emocionar e segredar o que nos vai na alma. O que lhe vai na mente quando fala da morte, do amor, do luto, da perda e da sua mulher: O coração da minha vida a vida do meu coração.

Talvez por isso tenha pensado por fim à sua vida, morrendo com ela, morrendo nela… e superando-se depois através dela. Tudo é novo neste seu olhar sobre a morte e a necessidade de celebrar a vida de alguém e por isso é recompensador toda a viagem que Barnes nos desenha por entre as diversas histórias de amor, de perda, de personagens como Nadar e Sarah Bernard em improváveis viagens de balão. …

Como sempre nos habituou, Barnes joga com os diferentes níveis da realidade a que estamos sujeitos enquanto vivos, por isso podemos pensar este livro como um processo de reflexão sobre a vida, a morte, a paixão e os processos de perda e dor e de procura de significado e propósito da vida que escolhemos e que nos é imposta… para a recusarmos, aceitarmos ou nos resignarmos…

Dizer que “juntamos duas coisas que ainda não se tinham juntado. E o mundo transforma-se. Nesse momento as pessoas podem não dar por nada, mas não importa. De qualquer maneira o mundo transforma-se” é dizer arrebatamento, consciência e fina normalidade sobre o que de facto importa… transformar o mundo e os complexos mundos que são a nossas vidas.

É um livro brilhante na oferta e generosidade de situações divergentes que se tocam num objetivo comum, o amor, a perda, a suspensão, a profundidade e a continuidade da vida que sem nós… também existe.

Isso é-nos dito em três narrativas diferentes que compõe os “capítulos” do livro:

A primeira sobre a morte e o modo como as pessoas reagem e superam, a morte com outras crenças e com outros sentidos para a dor e para a existência: a segunda relata biograficamente a ligação apaixonada do fotógrafo francês Félix Nadar por Sarah Bernhardt (1845-1923), extravagante atriz e muito famosa do séc. XIX e com quem nunca acabaria por casar… apesar de tudo e da sua capacidade de fotografar e fazer voar por vezes para além do possível. Por fim da sua tentativa de encontrar significado para a vida após a morte do seu coração.

Os Níveis da Vida é emocionalmente exigente e requer maturidade, experiência em perdas e em dor… até intuirmos que se juntarmos mesmo duas coisas diferentes podemos mudar a nossa vida para sempre e também o próprio mundo.

É este o tema, a lição, a verdade ou revelação que Barnes nos ensina e que lhe agradeço as palavras para além da literatura e a sua extrema sensibilidade.

Importa pois olhar a diferença, não para distanciar ou desagregar, mas para criar novas realidades, superar, juntar, subverter e procurar fazer um mundo novo.

É de esperança e de mudança positiva que acaba o livro, apesar da dor, da perda, da solidão e da morte que sempre fala neste capítulo intitulado “A Perda de Profundidade”.

A mensagem é clara, juntemos pois as diferenças saibamos respeitá-las, cuidá-las e por vezes alimentá-las para que, com elas e através delas, construamos um mundo novo que naturalmente será distinto, aberto a outras realidades e que nos fará seguramente diferentes… só assim a nossa vida, o nosso mundo, mudará para melhor.

Julian Barnes em Os Níveis da Vida fala do dom das nossas vidas, como se as vidas fossem mesmo nossas. E se calhar… são mesmo.

Nuno Lacerda Lopes

Deixe um comentário