Pouco passava das 21.30 quando a flauta de Rão kyao se fez ouvir no auditório do Casino de Espinho, convidado pelo Padre Artur Pinto, num concerto promovido pela Paróquia de Espinho.

Numa sala plena, o músico, acompanhado no órgão por Renato Silva Júnior, prendeu a si, e à sua melodia, um público entusiasmado.

Trouxe-nos o seu projeto “ Sopro de vida”, uma versão instrumental de cânticos marianos que proporcionou um belo momento de riqueza melódica que transmitiu , ao mesmo tempo, uma mensagem de fé, esperança e amor.

Talvez por isso, a escuta deste concerto lembrou-me o poema de Daniel Faria :
Eu Peneiro o Espírito e Crivo o Ritmo
Eu peneiro o espírito e crivo o ritmo
Do sangue no amor, o movimento para fora
O desabrigo completo. Peneiro os múltiplos
Sentidos da palavra que sopra a sua voz
Nos pulsos. Crivo a pulsação do canto
E encontro
O silêncio inigualável de quem escuta
Eis porque as minhas entranhas vibram de modo igual
Ao da cítara
Eu peneiro as entranhas e encontro a dor
De quem toca a cítara. A frágil raiz
De quem criva horas e horas a vida e encontra
A corda mais azul, a veia inesgotável
De quem ama
Encontro o silêncio nas entranhas de quem canta
Eis porque o amor vibra no espírito de quem criva
O músico incompleto peneira a ideia das formas
Eu sopro a água viva. Crivo
O sofrimento demorado do canto
Encontro o mistério
Da cítara
Daniel Faria, in “Dos Líquidos”
….Porque Rão kyao peneirou o espírito e crivou o ritmo e dessa combinação surgiu um concerto que foi, ao mesmo tempo, um tributo a Maria e momento de elevação pela música. O recital convidou à introspecção e ao silêncio como diz o poema:
“Encontro o silêncio nas entranhas de quem canta ” … “O silêncio inigualável de quem escuta ”
Mas também convidou à partilha pois foram muitos que acompanharam com as vozes as melodias tocadas pelo músico


Deixe um comentário