Vivências em Taizé…

Quando estive em Taizé foi-me lançado o desafio de escrever uma carta que me seria enviada após três meses do meu regresso. Eu decidi escrever sobre a minha estada na comunidade da paz para que, de cada vez que relesse a carta, pudesse relembrar todos os momentos que lá passei. Por isso, decidi partilhar a descrição mais sincera e genuína que algum dia poderia fazer.

Carta que descreve a melhor versão de mim:

“Nunca pensei que Taizé pudesse ser algo tão poderoso e especial; que provocasse em mim tal mistura de emoções numa curta semana. Nunca pensei encontrar tanta calma e plenitude num lugar tão diverso e multicultural.

            Ao chegar, tudo pareceu confuso e desordenado, tal como o templo quando Jesus lá chegou. Reinava o caos e as vozes barulhentas de todos os que aqui já se encontravam…

            Mas tudo mudou ao entrar na igreja, ao preparar-me para a primeira oração aqui em Taizé: “E eis que se rasgaram os céus” (Mt 2, 14). É impossível explicar por palavras o que senti quando todos nos unimos para cantar e glorificar numa só voz o nosso Deus, tão presente naquele momento.

                                   “Bonum est confidere”

                        (É bom confiar e esperar no Senhor)

            Parecia que a partir daquele momento, a vinda a Taizé passara a fazer sentido. Agora sim, sentia-me acolhida num lugar repleto de estranhos. Cheguei à tenda ainda a vibrar com todo o deslumbre e devoção que a oração me fez sentir.

            Para complementar e tornar mais dinâmica a estadia de cada um, somos atribuídos de acordo com a faixa etária aos devidos grupos, onde ainda somos subdivididos em pequenos grupos internacionais chamados grupos de partilha em que cada dia, com a ajuda de um irmão da comunidade, somos levados a conhecer melhor a nossa Bíblia. Parecendo que não, descobrem-se pontos de vista tão diferentes daqueles que já temos como seguros no país natal. É tão reconfortante descobrir que não, não estou sozinha, não sou eu contra um mundo corrupto e enganador, mas sim eu e um mar de gente que acredita em algo superior a nós próprios que nos acompanha em cada decisão. É tão libertador apercebermo-nos que somos compreendidos, que as dúvidas que possamos ter são partilhadas por muito mais gente. É tão importante para mim saber que alguém de outra cultura e até com um idioma diferente me aceita sem me julgar e atribuir um estereótipo predefinido…

            Para tornar ainda mais valiosa a nossa jornada, somos levados a assumir tarefas em equipa tal como distribuir comida ou até limpar as casas de banho! O que mais me impressionou nisso tudo foi o respeito que temos uns pelos outros, o sorriso que nos consola de um estranho que passa por nós de manhã, o ouvir um milhão de idiomas diferentes e mesmo assim sentir-se integrado ao som reconfortante dos sinos da manhã…

            Cada momento em Taizé é vivido intensamente, saboreando cada minuto de introspeção e reflexão.  Monólogos intermináveis que nos fazem questionar sobre tudo e mais alguma coisa, vasculhando até ao mais ínfimo pormenor de nós mesmos. Chega a ser sufocante o silêncio em que mergulhamos e as respostas que cismam em continuar escondidas lá bem no fundo. É difícil… muito difícil… mas a plenitude e a serenidade que atingimos ao permanecer neste silêncio ensurdecedor consegue superar todos os outros sentimentos de dúvida e pouca fé. É uma luta permanente que procuramos cessar, mas cada vez mais nos apercebemos que só poderá ficar ainda mais acesa, com ainda mais perguntas e respostas por dar.

            Descobrir todos os dias uma nova faceta nossa chega a ser assustador… uma faceta contemplativa e silenciosa, mas mesmo assim tão poderosa e destrutiva. No silêncio, a insegurança que nos rodeia parece vir em força, atacando cada sentido…

            Porém, tudo é vivido com uma imensa alegria, num ambiente de partilha e amor. Este convívio e união parecem acalmar o barulho de todas as perguntas. Todos somos tão diferentes… cada um de nós com um olhar novo, um modo de andar diferente e uma língua que o do lado provavelmente não vai entender, mas como o irmão Alois disse: todos temos necessidade de ser amados e de amar, de viver neste amor de Deus porque Deus é amor e nada temos a temer.

            O encontro com o irmão Alois foi o momento mais bonito que vivi em Taizé. A forma como fomos acolhidos em La Morada fez-nos sentir tão próximos dele e de tudo que tinha a dizer com o seu olhar profundo e cativante e voz serena e doce.

            Já não consigo imaginar a minha vida sem as três orações diárias, com os cânticos mais belos e os momentos de silêncio. Pergunto-me se estou pronta para voltar para a vida turbulenta e sufocante que levava antes de aqui chegar. Vai ser difícil ter de mudar radicalmente de rotina, tendo de me adaptar ao mundo lá fora como os discípulos aquando a morte de Jesus. Vou viver, levando aos meus dias um pouco daquilo que aprendi.”

Francisca Resende

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