“Refugia-te na arte, diz-me Alguém E eleva-te num voo espiritual”

Florbela Espanca


Nos braços da cruz…

Cinema: Springsteen on the Road

É com a oração do Pai Nosso que Bruce Springsteen termina o seu Concerto autobiográfico. Pode parecer estranho a um primeiro olhar e para quem não estiver familiarizado com a música deste autor.

A música de Bruce, The Boss, como é conhecido no mundo do Rock & Roll, tem um ritmo muito próprio. Tal como todos os músicos, tem a sua forma pessoal de interpretar a música. Para Springsteen, não é só a música, mas também a vida, porque é aqui que este cantautor encontra o ritmo para as suas composições.

O que faz único um músico é o ritmo que encontra no seu íntimo e que lhe possibilita interpretar, de uma forma original uma peça musical, que é executada milhentas vezes por um sem número de músicos.

The Boss procurou nas suas vivências os temas para os seus trabalhos poéticos e musicais. A mais difícil de todas, e talvez a que mais o ajudou a encontrar a sua própria voz, como nos descreve neste concerto, diz respeito à relação com o seu pai. Podemos dizer que o Concerto termina com o Pai Nosso, porque finalmente Bruce Springsteen se encontrou consigo, porque se encontrou com o seu pai.

O Concerto é um género de confissão pública, melhor, de reconciliação. Bruce reconhece que muitas vezes se sentiu um mentiroso, porque muito do que cantava encontrava-se muito distante do que verdadeiramente tinha vivido. Um bom exemplo é a música Born to run. Bruce abandona a sua cidade, para fugir ao pai e à vida tão curta que vislumbrava diante de si. Sonhava com muito mais e para isso tinha que correr atrás do sucesso, dos grandes produtores e discográficas. The Boss confessa que precisou de regressar a casa e, se antes cantava que a casa do seu pai estava vazia, tal como podemos escutar em My father house, agora encontra-se cheia. O regresso possibilitou o encontro com todos os seus fantasmas e, com o maior deles, o pai. Não só com os seus fantasmas, mas também reconciliar-se com o passado e descobrir-se a si próprio. Os ritmos e os ritos da sua infância, que o fizeram e que lhe deram o seu ritmo mais profundo, como a oração do Pai Nosso, rezada todos os dias no colégio Católico que frequentava.

O regresso foi uma reconciliação consigo. Esta reconciliação passou a ser procurada todos os dias, estando um pouco com cada um daqueles que já partiram, ao fim do dia. A reconciliação consigo implicou regresso à sua cidade natal mas, principalmente, possibilitou a reconciliação com o seu pai, com o Pai. E assim termina o concerto.

 

 

Escultura: Pietàs de Miguel Ângelo

“Em cada bloco de mármore vejo uma estátua; vejo-a tão claramente como se estivesse na minha frente, moldada e perfeita na pose e no efeito. Tenho apenas de desbastar as paredes brutas que aprisionam a adorável aparição para revelá-la a outros olhos como os meus já a vêem.”

Michelangelo Buonarrotti

 

Pietà de S. Pedro do Vaticano é a única escultura assinada por Miguel Ângelo. Na fita cruzada sobre o peito da Virgem Maria gravou as palavras Michael Angelus Bonarotus Florent Faciebat, ou seja, «Miguel Angelo Buonarotus de Florença fez.» O que segundo Vasari demonstra “ a satisfação do artista com o resultado alcançado”. Na realidade trata-se de uma obra requintada, com perfeito acabamento e polimento de mármore. Maria contempla em seus braços o corpo sem vida e intencionalmente reduzido de Jesus. Michelangelo quebra as regras de proporção para dar maior expressividade à sua obra. O que surpreende neste conjunto harmonioso é a beleza calma da Virgem juvenil, em cujos joelhos repousa Cristo em posição de criança adormecida. Nela, o rosto angelical de Maria é a representação do amor materno, da conformação e aceitação da morte. A Virgem não olha para Cristo, com a cabeça inclinada e o gesto da mão esquerda aberta aceita a vontade divina.

Mais tarde com a Pietà Rondanini, (passados mais de 50 anos entre as duas obras), o autor deixa-nos uma obra inacabada, dramaticamente mutilada. Na Pietà de Milão Michelangelo coloca toda a carga dramática da perda de um filho, na posição dos corpos com as figuras de Maria e do filho concebidas verticalmente, dando a impressão de um retorno ao ventre ou de um abraço da morte. Talvez a solidão da velhice corresponda à solidão destas únicas imagens verticais: a mãe de pé a segurar o filho morto que parece sair dela. As duas figuras são apenas esboçadas mas toda a força da arte expressionista já está presente.

Michelangelo achava que, entre todas as artes, a mais próxima de Deus era a escultura. Deus havia criado a vida a partir do barro, e o escultor libertava a beleza da pedra. Segundo ele, a sua técnica consistia em ‘libertar a figura do mármore que a aprisiona’. Conseguiu.

Obrigado Miguel Ângelo

 

 

Música: Sicut Cervus

“Sicut Cervus”  – Giovanni Pierluigi da Palestrina (c. 1525 – 1594). Tradução: ” Como suspira o veado pelas fontes das águas, assim minha alma suspira por Ti, ó Deus”.   Este motete, próprio da Vigília Pascal, particularmente pertinente quando há baptizados, é constituído por três partes. Em cada parte há palavras mais importantes sublinhadas, à boa maneira do canto gregoriano e da polifonia renascentista, por longos melismas. Assim, e na primeira parte, a palavra mais importante é água (aquarum), na segunda anseio/desejo (desiderat) e na última alma e Deus (anima e Deus).Reparemos também nas sucessivas entradas da palavra anima: começa nos sopranos, depois altos, tenores e, por fim, baixos. Por outras palavras, a alma vem do alto, do junto de Deus.  

 

 

 

 

 


 
Desenhamos esquissos que nos abrem a luz reveladora das mais belas paisagens e nos fazem entrar no miradouro onde se contempla a graça que nos vem em cada procura do belo.

Uma coroa de advento …

Abrimos este espaço diferente e nele entramos pela porta mais pequena, a das pequenas coisas que fazem de todos os dias uma oportunidade para viver algo diferente entre iguais acontecimentos. O advento é isso mesmo: o círculo de quem volta, mas na volta está a oportunidade para fazer como se fosse a primeira vez. Hoje tudo está a começar e, quem começa hoje deixa ontem para trás e amanhã para amanhã. É hoje que deseja começar e fazer com que tudo se inicie e só principia quem está disposto a repartir a vida. Hoje, mais do que nunca, o pequeno gesto trará tudo, dar-se-á todo. Em tudo isto não entra o mero distribuir embrulhos enlaçados em cores vistosas, mas que não abraçam a vida. Hoje, a vida, apenas a vida, tenho para ti. Advento, tempo do que vem e do que espera que venha. É tempo do encontro entre duas vontades, Deus que visita a humanidade para com ela residir, numa assunção da condição humana. Esta, a condição humana, é de verdadeiro ser esperante e enquanto aguarda Aquele que vem, recria-se, inventa-se no amor, para que seja de condição divina. Esta, a condição divina, é puro dar-se àquele que por Deus espera. Não escrevas só um cartão de boas festas, mas desperta do inconformismo para seres pura esperança na fé de que o amor vem. Advento, tempo de aprendizagem. Mais uma vez voltamos à escola. Nestas coisas estamos sempre a regressar para aprofundar o pouco que aprendemos cada ano. Só aprende quem espera. Esperar… quem deseja aprender faz silêncio… silêncio difícil de aprender. Ainda mais difícil é aprender a viver o que o silêncio tem para nos dizer… Contemplamos e aprendemos a caminhar. Voltamos aí, aos primeiros passos, trôpegos, às primeiras palavras, balbuciadas, ao primeiro gesto, o colo nos braços de quem sabemos que nos ama. Vamos viver tudo isto na nossa coroa de Advento, aqui no nosso site. Esta coroa será diferente, será feita com todas formas belas que a humanidade possui para dizer a sua espera, que não a desespera, mas a faz esperante.
Um bom Advento para um santo Natal.
Pe. Artur Pinto


Em tempo de Advento… Anunciação de Fra Angelico

Por Cecília Remoaldo e Zélia Castro


a cor faz-se luz

dimana o esquemático desenho candura e

recolhida entre dois arcos está a virgem – ao fundo

a sala adivinha-se vazia – sob a abóbada

onde ínfimos astros cintilam veio o anjo

com seu esplendor de asas em ouro trazer

o doce recado: hás-de conceber e dar à luz um filho

que reinará eternamente sob a casa de jacob

angelico estremeceu com a inesperada revelação e

na cela retirado deu vida às celestiais criaturas

mas só ele e a pomba ouviram o segredo

que Deus mandara Gabriel anunciar

Al Berto

 

Anunciação de Fra Angelico

FraAngélico era um monge que exclusivamente servia a Fé e a Igreja. Nessa medida, destaca-se do panorama artístico da sua época.

Nas suas obras, a religiosidade é espontânea e inocente, irradiando uma claridade sobrenatural. E a decoração do espaço, tantas vezes minuciosa, é sempre um ornato secundário e meramente coadjuvante do tema piedoso comunicável.

A “Anunciação” de Cortona

Estamos perante o painel central de um complexo retábulo da autoria de Fra Angélico(1433-34), que ilustra o início do Renascimento, surgido na Florença no séculoXV.

Trata-se do tema da ANUNCIAÇÃO, sempre caro aos artistas, ao longo dos séculos, remontando ao século V, mas que aparece agora com uma nova e vigorosa interpretação. Na realidade, o culto da Virgem estava em franco desenvolvimento neste século, sendo ela o centro da arte cristã renascentista, onde desempenha numerosos papéis. Sendo a figura central de vários temas, os pintores sentiram-se, sobretudo, atraídos pelo tema da maternidade. 

De acordo com as fontes bíblicas, a Anunciação, que descreve a aparição do Arcanjo S. Gabriel a Maria, proclamando que ela tinha sido escolhida para ser a mãe do Salvador, ocorreu a vinte e cinco de março, exatamente nove meses antes do Natal, ou seja, no sexto mês de gravidez de Isabel, prima de Maria e mãe de S.João Baptista. Este tema baseia-se, ainda, nos Evangelhos Apócrifos e na Legenda Áurea.

Esta obra foi uma encomenda dos frades dominicanos de quem a Virgem Maria era padroeira, sendo o próprio autor também um frade dominicano. 

A técnica utilizada pelo pintor é têmpera sobre madeira e as dimensões do quadro são 160×180 cm. Está enquadrado por uma elaborada moldura esculpida e por pequenos painéis subsidiários que incluem a predela com cenas da vida da Virgem(Esponsais da Virgem, Visitação, Adoração dos Reis Magos, Apresentação noTemplo e Dormição da Virgem).

Cenário

A ação principal decorre num espaço interior, cujo pórtico representa o estilo clássico com esguias colunas coríntias e em que o teto entrelado repete o desenho das delicadas constelações de flores do jardim exterior. A encimar a coluna que separa o Anjo da Virgem, ou seja, o mundo terreno do mundo espiritual, podemos ver num medalhão esculpido um retrato do Profeta Isaías; na medida em que este profeta previu a vinda do Messias, poder-se-á considerar,aqui, uma prefiguração, uma vez que a profecia acaba por ser cumprida. É possível, igualmente, visualizar um portal que conduzirá ao quarto de Maria que fica por detrás de um cortinado vermelho vivo corrido, o que aponta para uma referência à sua virgindade. Exteriormente,um jardim cercado poderá, também, reforçar essa mesma ideia da pureza de Maria,conhecida pela “Rosa sem espinhos”, isto é, sem pecado. Daí a presença, na sebe, de duas rosas brancas. Destaca-se, ainda, a presença de uma vedação que separa o jardim da Anunciação do cruel mundo exterior, dominado pela cena secundária da expulsão de Adão e Eva do Paraíso.

Personagens

Centrando-nos,agora, nas personagens, constatamos que toda a ação incide na sua dimensão psicológica, nos seus gestos, nas suas expressões e nas suas motivações implícitas. Maria está sentada numa cadeira de fundo folheado a ouro ou de mosaicos, mantendo, ainda traços de estilo gótico. A virgem está modestamente vestida com um manto azul, a cor com que geralmente é apresentada, debruado adourado e com delicado véu sobre os cabelos. Um halo resplandescente circunda orosto puro de Maria, o que se verifica, igualmente, no Anjo. A face da Virgem, humanizada, serena e inteligente, é representada de acordo com o contexto cultural do Renascimento.

A colocação de um livro aberto no seu colo leva-nos a pensar que a Virgem estaria lendo a Bíblia e meditando sobre a passagem do livro de Isaías em que umavirgem concebe e dá à luz um filho (Isaías 7-14).

Entretanto,a segunda personagem, o Arcanjo S. Gabriel apresenta-se como um jovem que,convictamente, transmite a mensagem de que é portador. Destacam-se as suas maravilhosasasas, onde sobressai o pormenor de cada pena, o que nos leva a concluir que Fra Angelico tenha estudado, atentamente, as asas de algumas aves. A este aspetonão será alheio o facto de o pintor ter iniciado a sua carreira como decoradorde manuscristos. Interessante é ver, também, como o artista acentuou a sobrenaturalidade do Anjo, fazendo partir raios de luz dourada das suas vestes.

O mensageiro de Deus foi pintado, gesticulando com ambas as mãos na direção deMaria e do Espirito Santo. O seu gesto é acompanhado pelas palavras que lhesaem dos lábios e aparecem escritas em forma de legenda: “O Espírito Santo virásobre ti e a força do Altíssimo estenderá sobre ti a sua sombra” Lc 1, 35. Na sequência destas palavras, Maria cruza as mãos sobre o peito em s nal desubmissão ao papel que Deus lhe atribui e também ela lhe responde, através damesma legenda: “Eis a escrava do Senhor, faça-se em mim, segundo a Tua palavra”Lc 1, 38. Note-se que estas palavras foram pintadas no sentido inverso para queDeus, observando a cena, as pudesse ler.

É claro que não poderá faltar a representação da pomba como símbolo do Espírito Santo. Fra Angélico rodeia-a com raios de luz dourada. A descida do Espírito Santo simboliza o momento da concepção.

Como acima foi referido, Fra Angélico inclui a cena da expulsão de Adão e Eva doParaíso, lembrando a Queda do Homem e assinalando que Jesus, enquanto Redentor,veio ao Mundo para salvar a humanidade do pecado.

Concluímos a análise iconográfica desta obra, com uma citação de Jonh Ruskin acerca daobra deste artista do Quatrocentto,cuja graça e delicadeza tiveram enorme influência na pintura italiana: “Fra Angélico não é propriamente um pintor mas um santo inspirado”.

Cecília Remoaldo

Zélia Castro

( adaptado)


Em tempo de Advento… Um conto de Natal

Por J. Guerra


NATAL

De sacola e bordão, ovelho Garrinchas fazia os possíveis para se aproximar da terra. A necessidade levara-o longe demais. Pedir é um triste ofício, e pedir em Lourosa, pior. Ninguém dá nada. Tenha paciência, Deus o favoreça, hoje não pode ser – e beba um desgraçado água dos ribeiros e coma pedras! Por isso, que remédio senão alargar os horizontes, e estender a mão à caridade de gente desconhecida, que ao menos se envergonhasse de negar uma côdea a um homem a meio do padre-nosso. Sim, rezava quando batia a qualquer porta. Gostavam… Lá se tinha fé na oração, isso era outra conversa. As boas acções é que nos salvam. Não se entra no céu com ladainhas, tirassem daí o sentido. A coisa fia mais fino! Mas, enfim…Segue-se que só dando ao canelo por muito largo conseguia viver.

E ali vinha demais uma dessas romarias, bem escusadas se o mundo fosse de outra maneira. Muito embora trouxesse dez réis no bolso e o bornal cheio, o certo é que já lhe custava arrastar as pernas. Derreadinho! Podia, realmente, ter ficado em Loivos. Dormia, e no dia seguinte, de manhãzinha, punha-se a caminho. Mas quê! Metera-se-lhe na cabeça consoar à manjedoira nativa… E a verdade é que nem casa nem família o esperavam. Todo o calor possível seria o do forno do povo, permanentemente escancarado à pobreza. Em todo o caso sempre era passar a noite santa debaixo de telhas conhecidas, na modorra de um borralho de estevas egiestas familiares, a respirar o perfume a pão fresco da última cozedura… Essaregalia ao menos dava-a Lourosa aos desamparados. Encher-lhes a barriga, não.Agora albergar o corpo e matar o sono naquele santuário colectivo da fome,podiam. O problema estava em chegar lá. O raio da serra nunca mais acabava, esentia-se cansado. Setenta e cinco anos, parecendo que não, é um grande carrego. Ainda por cima atrasara-se na jornada em Feitais. Dera uma volta ao lugarejo, as bichas pegaram, a coisa começou a render, e esqueceu-se das horas. Quando foi a dar conta passava das quatro. E, como anoitecia cedo não havia outro remédio senão ir agora a mata-cavalos, a correr contra o tempo e contra a idade, com o coração a refilar. Aflito, batia-lhe na taipa do peito, a pedir misericórdia. Tivesse paciência. O remédio era andar para diante. E o pior de tudo é que começava a nevar! Pela amostra, parecia coisa ligeira. Mas vamos ao caso que pegasse a valer? Bem, um pobre já está acostumado a quantas tropelias a sorte quer. Ele então, se fosse a queixar-se! Cada desconsideração do destino! Valia-lhe o bom feitio. Viesse o que viesse, recebia tudo com a mesma cara. Aborrecer-se para quê?! Não lucrava nada! Chamavam-lhe filósofo… Areias, queriam dizer. Importava-se lá.

E caía, o algodão em rama! Caía, sim senhor! Bonito! Felizmente que a Senhora dos Prazeres ficava perto.Se a brincadeira continuasse, olha, dormia no cabido!

O que é, sendo assim, adeus noite de Natal em Lourosa…

Apressou mais o passo, fez ouvidos de mercador à fadiga, e foi rompendo a chuva de pétalas. Rico panorama! Com patorras de elefante e branco como um moleiro, ao cabo de meia hora de caminho chegou ao adro da ermida. À volta não se enxergava um palmo sequer de chão descoberto. Caiados, os penedos lembravam penitentes.

Não havia que ver: nempensar noutro pouso. E dar graças! Entrou no alpendre, encostou o pau à parede,arreou o alforge, sacudiu-se, e só então reparou que a porta da capela estava apenas encostada. Ou fora esquecimento, ou alguma alma pecadora forçara a fechadura.

Vá lá! Do mal o menos. Em caso de necessidade, podia entrar e abrigar-se dentro. Assunto a resolver na ocasião devida… Para já, a fogueira que ia fazer tinha de ser cá fora. O diabo era arranjar lenha.

Saiu, apanhou um braçadode urgueiras, voltou, e tentou acendê-las. Mas estavam verdes e húmidas, e o lume, depois de um clarão animador, apagou-se. Recomeçou três vezes, e três vezes o mesmo insucesso. Mau! Gastar os fósforos todos é que não.

Num começo de angústia, porque o ar da montanha tolhia e começava a escurecer, lembrou-se de ir à sacristia ver se encontrava um bocado de papel.

Descobriu, realmente, um jornal a forrar um gavetão, e já mais sossegado, e também agradecido ao céu por aquela ajuda, olhou o altar.

Quase invisível na penumbra, com o divino filho ao colo, a Mãe de Deus parecia sorrir-lhe.

Boas festas! – desejou-lhe então, a sorrir também. Contente daquela palavra que lhe saíra da boca sem saber como, voltou-se e deu com o andor da procissão arrumado a um canto. E teve outra ideia. Era um abuso, evidentemente, mas paciência. Lá morrer de frio, isso vírgula! Ia escavacar o ar canho. Olarila! Na altura da romaria que arranjassem um novo.

Daí a pouco, envolvido pela negrura da noite, o coberto, não desfazendo, desafiava qualquer lareira afortunada. A madeira seca do palanquim ardia que regalava; só de cheirar onaco de presunto que recebera em Carvas crescia água na boca; que mais faltava?

Enxuto e quente, o Garrinchas dispôs-se então a cear. Tirou a navalha do bolso, cortou um pedaço de broa e uma fatia de febra e sentou-se. Mas antes da primeira bocada a almadeu-lhe um rebate e, por descargo de consciência, ergueu-se e chegou-se à entrada da capela. O clarão do lume batia em cheio na talha dourada e enchia depois a casa toda.

É servida?

A Santa pareceu sorrir-lhe outra vez, e o menino também.

E o Garrinchas, diante daquele acolhimento cada vez mais cordial, não esteve com meias medidas: entrou, dirigiu-se ao altar, pegou na imagem e trouxe-a para junto da fogueira.

– Consoamos aqui os três – disse, com a pureza e a ironia de um patriarca. – A Senhora faz de quem é; o pequeno a mesma coisa; e eu, embora indigno, faço de S. José.”

                                                    Miguel Torga, Novos Contos da Montanha, 1944, Coimbra

O título, só por si, traduz a dimensão humana e religiosa da época natalícia: o nascimento de Cristo e a família, reunida na harmonia do encontro humano festivo. Será que o conto realiza estes aspectos? Veremos.

1. A acção

O conto Natal está estruturado como é habitual: introdução, corpo do conto que se subdivide em duas partes e conclusão.

Na introdução (o primeiro parágrafo), o narrador faz uma sintética apresentação da única personagem do conto: o Garrinchas.

Na primeira parte, desde “E ali vinha…” até “Não havia que ver: nem pensar noutro pouso.E dar graças!, predominantemente descritiva,o narrador omnisciente e heterodiegético (=não participante na acção)  descreve osacidentes do espaço (a serra), as condições do tempo e as reacções das pessoasa quem Garrinchas pede esmolas bem como osseus monólogos interiores,de relevante importância para a sua identificação psicológica.  A acção progride em ritmo lento — é o plano da descriçãoda subida difícil de uma serra — eos monólogos interiores frequentesinformam os leitoressobre o pensamento de Garrinchas a respeito das suas experiências devida e da sua visão do mundo.

Na segunda parte (a partir de “Entrou no alpendre” até “e o menino também”), predominantemente narrativa, o narrador cumpre as normas deste tipo de texto: uma acção maisrápida, apontando para um desenlace. O ritmomais rápido e  dinâmico deve-se à necessidade de encontrar um lugar minimamente acolhedorpara consoar, dada a impossibilidade de passar a noite de consoada na terranatal: Lourosa. Como não podia deixar de ser,há os oponentes e os adjuvantes da acção.

Os oponentes são a idade avançada de Garrinchas (75 anos), o frio e a neve que começa a cair e o anoitecer. Os adjuvantes  são a força de vontadedo protagonista de chegar a Lourosa e de ter uma ceia confortável.

Desde o início, é curioso e interessante ver que a acção vai progredindo sempre em paralelo com a difícil subida da serra.

Na conclusão (os dois últimos parágrafos), o narrador teve o engenho e arte de criar um desfecho imprevisto e muito original (e com humor), como é típico dos contos: uma ceia de consoada especial cujos comensais são o Garrinchas e a Sagrada Família numa capela curiosamente denominada com alguma ironia Senhora dos Prazeres.

2. Personagens

Garrinchas, homem idoso de75 anos, é personagem única, pedinte de porta em porta, acolhido aqui,desprezado além, resignado com a sua sorte, e muito ligado à sua terra natal:Lourosa (Vila Real). Era ali que desejara passar o Natal. Carácter forte, não desiste, critica a insensibilidade das pessoas da sua terra que recusam dar-lhe esmola, mostra-se inteligente ao saber responder ao improviso da neve e danoite de uma forma nunca sonhada. A sua resistência tem a marca do autor. Desalientar, a capacidade de comentar a sua situação e a dos outros, o que mostraalguma densidade psicológica, afastando-se da personagem plana incapaz destas análises.

3. Espaço e tempo

Como já se disse, o espaço é a serra e as aldeias por onde passa sempre no desejo de chegar a Lourosa, sua terra natal. E o tempo é pressupostamente um dia em que o pedinte anda de porta em porta na procura de receber as dádivas dos interpelados pelas suas palavras e orações. 

A Mensagem

1. Garrinchas (nome popular) não tem casa nem família. E na época natalícia, a vontade de passar a consoada na sua (nossa) casa é muito intensa. Não consegue. Ora, há hoje tanta gente solitária que não tem companhia na noite de consoada e é triste. É evidente a interpelação que é feita aos leitores no sentido de os chamar à missão de preencher este vazio. Miguel Torga recorda muitas vezes o Natal da sua infância em poemas e em prosa. Somos convidados a proporcionar alegria àqueles que não têm companhia e a denunciar a indiferença reinante perante os mais pobres.

2. O Natal é afesta da família que se reúne não só para conviver mas também para recordarnuma memória colectiva inapagável o nascimento de Jesus e os ausentes.

O padre António Vieira afirmou que “o efeito da memória élevar-nos aos ausentes, para que estejamos com eles, e trazê-los a nós para queestejam connosco.” E segundo o escritor francês George Sande, “A memória é o perfume da alma.”.

Não tendo família, não podendo passar aconsoada debaixo das telhas da sua aldeia, o Garrinchas teve a esperteza de encontrar um bom substituto. Nova interpelação aos leitores para que não seesqueçam de fazer família nesse dia tão lindo e importante. Por vezes, passamosalém do sentido do Natal, tal é o palpitante fervilhar do consumismo.

3. Finalmente, este pobre pedinte ensinou aos leitores como se deve passar a consoada. Ele, que não se mostrava muito crente, soube captar o sentido mesmo com algum humor e, de forma improvisada, alcançou o sentido real da festa de Natal. Em família, comemorou com o aniversariante. Colocar Jesus no centro da consoada é a verdadeira essência desta refeição. Soube encontrar um inesperado presépio, talhado à medida da fé pura e rude de quem tinha todos os motivos para descrer da providência divina. E se víssemos em Garrinchas o protótipo de milhões de seres que não têm Natal? E se víssemos em Garrinchas um apelo a que se coloque Jesus no centro da consoada? E se víssemos em Garrinchas o modelo da resistência face aos obstáculos da Vida? Quantos não desistem à mais pequena intempérie da existência,dado que são entregues ao facilitismo?

O leitor é convidado a reescrever o texto na sua vida e no seu tempo. Isto é que faz a delícia de um bom texto que, uma vez publicado, pertence à humanidade dos leitores que são interpelados para o belo trabalho de uma leitura activa e criativa.

Termino com as palavras de Madre Teresa de Calcutá: “É Natal sempre que deixares Deus amar os outros através de ti… sim, é Natal sempre que sorrires ao teu irmão e lhe ofereceres a tua mão.

                                                                                                                                                                                      JGuerra

Nota

O autor da análise não segue as normas do Novo Acordo Ortográfico.


Em tempo de Advento… o filme Feliz Natal

Por Carlos Gonçalves


Joyeux Noël (Feliz Natal): um pouco de paz às ordens da Grande Guerra

Um filme de: Christian Carion | Duração: 116 min | Resenha por Carlos Miguel Gonçalves [Investigador, Centro de Investigação e Estudos em Belas-Artes, Faculdade de Belas-Artes, Universidade de Lisboa].

Feliz Natal[1](2005), filme de quatro nacionalidades na sua produção (França, Alemanha, Grã-Bretanha, Bélgica, Roménia), apresenta-se como segunda obra do realizador francês Christian Carion. Conta a história de um cessar-fogo – de curto prazo -, obscurecido pela propaganda militar e deixa a marca Humanidade sobre a Grande Guerra. Feliz Natal desvela a realidade de um retrato impressionante e memorável fenómeno que surge da improvável relação entre franceses, escoceses e alemães na fria Flandres na noite de Natal em 1914. Paradoxalmente, conhecida como a terra de ninguém, a fronteira de combate foi palco do maior encontro utópico e militar do século XX; situação imprevisível que deita por terra o heroísmo e a honra nacionais do militarismo e dá lugar ao mais belo estandarte das emoções humanas: a celebração do amor e da família abraâmica. Feliz Natal desenrola-se ali mesmo e traz à luz arquivos extraordinários que guardam acontecimentos da linha da frente da Grande Guerra, incriminando desertores e objetores soldados. É Natal! Entre investidas bilaterais, soldados franceses e escoceses recebem das suas famílias os presentes responsáveis pela boa moral entrincheirada. De um lado, o Padre escocês e o jovem tenente francês. Do outro, o tenor que nunca foi soldado e dono de uma voz de ouro com a distribuição de dezenas de peras restauradoras dos sorrisos germânicos. Pela noite de 24 de dezembro de 1914, enquanto se ouviam gaitas das highlands e cânticos britânicos, os alemães com árvores de natal iluminadas, ouviam atentamente a voz do tenor Walter Kirchhoff, que fazia esquecer por momentos o horror da morte que viviam. Quando de repente, cantando do alto da sua voz, o tenor alemão com uma árvore de natal em punho subiu a trincheira e caminhou lentamente em direção ao lado inimigo. Precisamente nesse momento, os dois lados da barricada se enfrentam e trocam chocolates e champanhe reservados à ordem de jantar de cessar-fogo em cada corporação. Subitamente dá-se início à Eucaristia celebrada em latim, onde franceses, escoceses e alemães participam numa inesperada união. Rapidamente o som da guerra fez-se ouvir ao longe e todos recolheram novamente às suas trincheiras. Na manhã seguinte, tenentes das três corporações reuniram e decidiram colher e enterrar os corpos que jaziam sobre a neve que revestia a terra de ninguém, reforçando dessa forma a união e paz estabelecida na noite anterior. Os soldados, a partir deste momento, sentiram o inimigo humanizado através da Eucaristia. Um Natal que os consciencializou através da confraternização, da morte sem sentido. Um filme que confronta Humanidade e terror. Um mundo mais louco que a humanidade de um tenor alemão, que oferece aos soldados uma canção que ouvira antes numa ópera em Paris e que trespassa a força moral na noite de Natal; uma personagem que nunca foi soldado mas que Christian Carion introduz no seu filme, sublinhando o Natal, a sua importância humanitária, através da construção de um pouco de paz contra as ordens de uma guerra mundial.

[1] Tradução livre: Joyeux Noël.


Em tempo de Advento… Responsorium O Magnum Mysterium

Por Paulo Bernardino


O Magnum Mysterium (Ó Grande Mistério)

Responsorium ad Matutinum in Nativitate Domini (Responsório das Matinas do Dia de Natal)

Texto original (Latim) O magnum mysterium, et admirabile sacramentum, ut animalia viderent Dominum natum,   iacentem in praesepio! Beata Virgo, cujus viscera meruerunt portare Dominum Iesum Christum. Alleluia!Tradução (Margarida Miranda) Ó grande mistério, admirável sacramento O Senhor nascido entre animais, (à letra: os animais vendo o Senhor nascido), deitado no presépio! Ó feliz a Virgem cujo seio mereceu trazer Cristo Senhor. Aleluia!

O Magnum Mysterium, como acima descrito, é um responsório das Matinas do dia de Natal e, desde há muito, tem sido usado pelos mais diversos compositores, originando obras com estilos muito distintos. Ficam alguns exemplos:

Morten Lauridsen | Kings College – https://www.youtube.com/watch?v=Q7ch7uottHU

Victoria | The Cambridge Singers – https://www.youtube.com/watch?v=9xPh-fXYAc4

D. Pedro de Cristo | Coro de Cámara VoceArte – https://www.youtube.com/watch?v=ZBuBGSlzGMw

Palestrina | Score Animation – https://www.youtube.com/watch?v=j_Hx4n0jDSs

F. Poulenc | Score Animation – https://www.youtube.com/watch?v=fLarXVux6MU

Em termos estruturais, o Responsório assenta em duas partes principais – o Responso e o Verso – interpretando-se do seguinte modo: Responso, seguido pelo Verso e concluindo com a repetição da última parte do Responso, designada por Repetendum ou Presa, como se pode observar no seguinte exemplo de uma forma mais evidente (vide fig. 1):

(audição disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=27lORmLfpy4):

Figura 1 – Cantochão “O Magnum Mysterium” – Responsório

Neste caso em concreto temos o Verso Ave, Maria, gratia plena: Dominus Tecum (Avé, Maria, cheia de graça: o Senhor é convosco) e a Presa Beata Virgo, cujus viscera meruerunt portare Dominum Christum.

Também a obra que aqui analisaremos em mais detalhe (a partitura e respetiva interpretação pelo Manuel Faria Ensemble encontram-se em anexo) respeita a estrutura acima descrita. Trata-se do O Magnum Mysterium, composto em 1956 pelo padre e compositor holandês Maurice Pirenne (1928 – 2008), em stile antico, ou seja, segundo a estética musical sacra seiscentista.

Não nos iremos estender em longas e demoradas análises. Pretende-se, de uma forma simples, captar a atenção para pequenas preciosidades musicais, que muitas vezes nos escapam, mas que se encontram imbuídas de valor simbólico, refletindo um profundo conhecimento teológico da nossa fé.

Comecemos pelo texto “O Magnum Mysterium”, musicado desde o primeiro compasso ao quinto (cc. 1 – 5). Que grande mistério é este?

Celebramos no Natal o mistério da encarnação, o grande mistério de Deus que desceu do Céu para entrar na nossa carne. Em Jesus, Deus encarnou, fez-se homem como nós, e assim nos abriu o caminho para o Céu, para a comunhão plena com Ele. Deus assumiu a condição humana para curá-la de tudo aquilo que a separa Dele, para nos permitir chamá-lo, no seu Filho Unigénito, com o nome de “Abbá, Pai” e ser verdadeiramente filhos de Deus. Deus que é Deus, fez-se pequeno para a nossa salvação, fez-se indefeso e colocou-se nas mãos de Maria. Nas palavras do Papa Francisco: “Deus é humilde! Nós, que somos orgulhosos, cheios de vaidade e temos uma alta consideração de nós mesmos, nada somos! Ele, o grande, é humilde e faz-se menino. Trata-se de um verdadeiro mistério! Deus é humilde. E isto é bonito!”

Porém, o Natal, só se realiza na sua plenitude na Páscoa. Nas palavras do então ainda Cardeal Ratzinger: “A incarnação é apenas a primeira parte do movimento. Ela adquire pleno sentido e torna-se definitiva somente na cruz e na ressurreição. […] sobre a cruz e na ressurreição a incarnação da Palavra torna-se carne feita Palavra. A incarnação se retrata; torna-se definitiva somente no momento em que o movimento […] se inverte: a própria carne é “feita logos”.

Também o mistério da morte e ressurreição está presente na obra musical que aqui se analisa. Onde? Reparemos na parte dos Baixos nos compassos 4 e 5 (vide fig. 2):

Figura 2 – Excerto “O magnum mysterium” de Maurice Pirenne – cc. 1-5.

Entramos no campo das figuras retórica-musicais, que nos impele a olhar para além das meras notas musicais. Nos cc. 4 e 5 encontramos, sobre a palavra mysterium, o desenho da cruz (desenhada pelas notas mi-fá-ré-mi). Talvez os exemplos seguintes ajudem a entender melhor (vide figs. 3 e 4):

 

Figura 3 – Desenho da Cruz.Figura 4 – Rotação da fig. 3.

Em apenas cinco compassos o compositor consegue “resumir” os mistérios da encarnação, morte e ressurreição: “assumindo a condição de servo, tornou-Se semelhante aos homens. Aparecendo como homem, humilhou-Se ainda mais, obedecendo até à morte, e morte de Cruz” (Fl 2, 7-8). Reparemos também que a cruz aparece nos Baixos, a voz mais grave do coro, e não noutra voz qualquer mais aguda. Assumindo o Céu como sendo “nas alturas” e, consequentemente, o mundo humano “cá em baixo”, é passível interpretar, nesta passagem em concreto, que o sacrifício de Cristo na cruz é para a salvação dos homens. Ó, que admirável sacramento!

Outra curiosidade desta obra é a constante alusão à Santíssima Trindade. A presença mais evidente sucede no verso (cc. 28 a 38): Ave Maria¸ gratia plena: Dominus tecum (Avé, Maria, cheia de graça: o Senhor é convoscoLc 1, 28). Trata-se, como é do conhecimento de todos, da saudação do anjo Gabriel a Maria aquando do anúncio do nascimento de Jesus. “Maria disse ao anjo: «Como será isso, se eu não conheço o homem?» O anjo respondeu-lhe: «O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo estenderá sobre ti a sua sombra. Por isso, aquele que vai nascer é Santo e será chamado Filho de Deus» (Lc 1, 34-35). Musicalmente a textura passa nesta secção (cc. 28 a 38 – vide fig. 5 de 4 a 3 vozes (Sopranos em uníssono com os Altos) em que, regra geral, o número 3 representa a Santíssima Trindade: o Pai, que gerou o Filho por meio do Espírito Santo.

Figura 5 – Excerto “O magnum mysterium” – cc. 28-33.

As restantes alusões à Santíssima Trindade obrigam-nos a recorrer da hermenêutica dos teóricos musicais do barroco alemão, aplicada às descobertas dos filósofos gregos da antiguidade. Os músicos, e também os físicos, estão familiarizados com a série dos harmónicos descoberta por Pitágoras. No exemplo seguinte encontramos a série até ao seu 8º harmónico (vide fig. 6):

Figura 6 – Série dos Harmónicos até ao seu 8º.

Não nos interessa estudar as implicações físicas/acústicas da séria dos harmónicos. Mais interessante, sobretudo para nós cristãos, é a interpretação desta série pelo teórico e compositor alemão Andreas Werckmeister (séc. XVII). Na sua perspetiva, o 1º harmónico (algarismo 1 = uníssono), representa Deus, o Pai, enquanto que o segundo (algarismo 2) representa o Filho pois, à semelhança do intervalo de 8ª, também o Filho é uno com o Pai, embora distinto. O Espírito Santo, representado pelo algarismo 3 (musicalmente representa o intervalo de 5ª), completa a trindade. Está dentro da oitava (1:2 = Pai:Filho) e equivale à sua soma (1+2=3). O 4 é o número angelical e o 5 representa a Humanidade – pois o Homem tem 5 sentidos e 5 apêndices (cabeça, braços e pernas) – e, só quando colocado no contexto divino, ou seja, entre a 5ª (4:6 = 2:3), o Homem/Humanidade se realiza por completo (formando um acorde maior!).

Reparemos nas cadências (finais/término das frases musicais) usadas pelo compositor, mais concretamente os acordes finais nos cc. 27, 38 e 49: todos eles terminam num acorde sem 3ª, ou seja, só com a fundamental e a quinta, aludindo à Santíssima Trindade. Considerando, porém, que a peça começa (“criação”) em uníssono (Deus), e que a obra termina com a Santíssima Trindade, estamos perante o alfa e o ómega, perante o Deus eterno, o princípio e o fim de todas as coisas.

Contudo, quando o Senhor nasce entre os animais e se encontra deitado no presépio, o compositor realça a humanidade de Cristo terminando num acorde maior (vide c. 16 fig. 7).

Figura 7 – Excerto “O magnum mysterium” – cc. 11-16.

Estes são “pormaiores” que por norma escapam à grande maioria de nós, incluindo aos próprios músicos e, embora não percetíveis ao ouvido (a não ser que se conheça muito bem a obra), é esta “sabedoria” que impregna a sacralidade à música. Se Deus assim quiser, ouviremos esta obra muito em breve nas nossas celebrações natalícias no momento da apresentação dos dons. Que Deus nos abençoe a todos e que o nascimento do menino nos traga muito paz, amor e felicidade.

 

2º Domingo do Advento:

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