COMUNIDADE PAROQUIAL DE ESPINHO, 22 de Julho de 2018

XVI D O M I N G O   D O   T E M P O   C O M U M

MEDITANDO A PALAVRA DE DEUS…

PRIMEIRA LEITURA (Jr 23, 1-6)

Leitura do Livro de Jeremias

 

Diz o Senhor: «Ai dos pastores que perdem e dispersam as ovelhas do meu rebanho!» Por isso, assim fala o Senhor, Deus de Israel, aos pastores que apascentam o meu povo: «Dispersastes as minhas ovelhas e as escorraçastes, sem terdes cuidado delas. Vou ocupar-Me de vós e castigar-vos, pedir-vos contas das vossas más acções — oráculo do Senhor. Eu mesmo reunirei o resto das minhas ovelhas de todas as terras onde se dispersaram e as farei voltar às suas pastagens, para que cresçam e se multipliquem. Dar-lhes-ei pastores que as apascentem e não mais terão medo nem sobressalto; nem se perderá nenhuma delas — oráculo do Senhor. Dias virão, diz o Senhor, em que farei surgir para David um rebento justo. Será um verdadeiro rei e governará com sabedoria; há-de exercer no país o direito e a justiça. Nos seus dias, Judá será salvo e Israel viverá em segurança. Este será o seu nome: ‘O Senhor é a nossa justiça’».

 

Palavra do Senhor.

A actividade do profeta Jeremias estende-se desde cerca de 627 a. C., quando governa em Judá o rei Josias, até cerca de 580 a. C., quando o país é destruído pelos babilónios e o povo é exilado. Josias, rei bondoso e piedoso, morre tragicamente numa batalha e sucede-lhe o seu filho, Joaquim, que destrói a reforma religiosa e política do seu pai. É um rei corrupto, entrega-se ao luxo escandaloso e pratica a violência sobre os mais fracos. Politicamente é um incapaz: alia-se ao Egipto e desafia o rei da Babilónia. Este invade Israel uma primeira vez em 897 a. C. A destruição final dá-se um ano depois com o início do longo CATIVEIRO DA BABILÓNIA que terminará em 836 a. C.

É neste contexto que prega o profeta. Transmite as palavras ameaçadoras de Deus contra os chefes corruptos, comparando-os a pastores que conduzem o rebanho à ruína. Dirige-se ao povo desanimado, procura reanimá-lo, garantindo que Deus não o abandonará porque, no futuro, reinará um rei sábio, como SALOMÃO. Esse rei, sabemo-lo nós, será JESUS de Nazaré. Quão semelhantes são os nossos tempos aos do profeta Jeremias e quanta falta nos fazem profetas como ele!      

                                           

MEDITANDO A PALAVRA DE DEUS…

SEGUNDA LEITURA (Ef 2, 13-18)

 

Leitura da Epístola do apóstolo

São Paulo aos Efésios

Irmãos:

Foi em Cristo Jesus que vós, outrora longe de Deus, vos aproximastes d’Ele, graças ao sangue de Cristo. Cristo é, de facto, a nossa paz. Foi Ele que fez de judeus e gregos um só povo e derrubou o muro da inimizade que os separava, anulando, pela imolação do seu corpo, a Lei de Moisés com as suas prescrições e decretos. E assim, de uns e outros, Ele fez em Si próprio um só homem novo, estabelecendo a paz. Pela cruz reconciliou com Deus uns e outros, reunidos num só Corpo, levando em Si próprio a morte à inimizade. Cristo veio anunciar a boa nova da paz, paz para vós, que estáveis longe, e paz para aqueles que estavam perto. Por Ele, uns e outros podemos aproximar-nos do Pai, num só Espírito.

Palavra do Senhor.

 

Jesus derrubou todas as barreiras que separavam os homens, reunindo-os num só povo. A Lei de Moisés foi substituída pela lei da PAZ e do AMOR entre todos os povos. É a NOVA ALIANÇA em CRISTO SALVADOR. Por Cristo, todos se aproximam do Pai, “num só Espírito”. O primado já não é da LEI, cheia de prescrições, mas do amor que a morte de Cristo na cruz manifestou da forma mais evidente. Se a LEI afastava, o AMOR aproxima. O AMOR faz FAMÍLIA. O AMOR cria o HOMEM NOVO. O AMOR acolhe. O AMOR une. O AMOR purifica. O AMOR faz a PAZ.

Num mundo tão dividido, sangrento, sangrento mesmo para os cristãos (vinte cristãos por dia mártires da fé) faz bem ler e meditar o poema de Sophia Andersen:
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Que o tempo que nos deste seja um novo
Recomeço de esperança e de justiça.
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Erguei o nosso ser à transparência
Para podermos ler melhor a vida
Para entendermos vosso mandamento
Para que venha a nós o vosso reino
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Fazei Senhor que a paz seja de todos
Dai-nos a paz que nasce da verdade
Dai-nos a paz que nasce da justiça
Dai-nos a paz chamada liberdade
Dai-nos Senhor paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

 

MEDITANDO A PALAVRA DE DEUS…

EVANGELHO (Mc 6, 30-34)

Evangelho de Nosso Senhor Jesus

Cristo segundo São Marcos

 Naquele tempo, os Apóstolos voltaram para junto de Jesus e  contaram-Lhe tudo o que tinham feito e ensinado. Então Jesus disse-lhes: «Vinde comigo para um lugar isolado e descansai um pouco». De facto, havia sempre tanta gente a chegar e a partir que eles nem tinham tempo de comer. Partiram, então, de barco para um lugar isolado, sem mais ninguém. Vendo-os afastar-se, muitos perceberam para onde iam; e, de todas as cidades, acorreram a pé para aquele lugar e chegaram lá primeiro que eles. Ao desembarcar, Jesus viu uma grande multidão e compadeceu-Se de toda aquela gente, que eram como ovelhas sem pastor. E começou a ensinar-lhes muitas coisas.

Palavra da salvação. 

MEDITAÇÃO SOBRE O EVANGELHO

As leituras deste domingo oferecem-nos um TEMA COMUM de grande importância: o segredo para o êxito do trabalho de apostolado e mesmo de qualquer trabalho de relevo. Jesus revela o segredo: «Vinde comigo para um lugar isolado e descansai um pouco». Com estas palavras, Jesus chama a  atenção  para  uma  tentação muito frequente: o ACTIVISMO febril que mata não só as pessoas como também o trabalho de profundidade. Hoje mais do que nunca, assiste-se a uma louca correria: trabalhos e mais trabalhos, ruídos e mais ruídos, projectos e mais projectos, actividades e mais actividades. E o que sucede? Sucede que ninguém tem tempo para ninguém. Os pais não têm tempo para os seus filhos, os filhos quase não vêem os seus pais, não há tempo para a oração e para a contemplação. O essencial é esquecido. Faz falta o SILÊNCIO contemplativo. Frei Bento Domingues conta no seu artigo publicado no jornal Público que no mundo helénico o SILÊNCIO era o símbolo da mais alta divindade e transcreve uma oração ao SILÊNCIO da “Liturgia de Mithra (séc. IV) feita por um homem perseguido pelos deuses hostis: “Silêncio, Silêncio, Silêncio / — símbolo do Deus eterno e imortal — / acolhe-me sob as tuas asas, ó Silêncio.” Oração comovente, afirma o mesmo articulista. E de facto assim é. É conhecida a velha máxima: Primeiro, fala a Deus dos homens e depois fala de Deus aos homens. ESTAR com JESUS. “O segredo é a porção de Deus que está em ti. (…) Se fores  fiel  a esta porção de Deus, serás livre da escravidão dos outros e das coisas, das convenções exageradas, dos códigos sem alma (…) das imagens que os outros têm de ti.” (A. Casati). Saber estar com Jesus, saber ouvir, fazer o balanço das actividades sob este ângulo, deveria ser a primeira atitude de cada apóstolo. Deus faz o resto.

Os discípulos foram enviados por Jesus a cumprir a sua missão e regressaram a Jesus que os recebe e parte com eles para um lugar de descanso. Assim ressaltam dois horizontes: É Jesus Quem envia, recebe e parte com eles. JESUS, o centro de tudo! Em segundo lugar, os discípulos não vão em nome próprio, sabem que alguém os enviou, despojados de tudo. Cada cristão deve entender que não faz apostolado em nome próprio e, por isso, nunca se deve vangloriar, a não ser “no Senhor”. Leiamos com atenção este simples poema de M.F. Powers – PEGADAS NA AREIA:

Sonhei que estava caminhando na praia
juntamente com Deus.
E revi, espelhado no céu,
todos os dias da minha vida.
E em cada dia vivido,
apareciam na areia, duas pegadas:
as minhas e as d’Ele.
No entanto, de quando em quando,
vi que havia apenas as minhas pegadas,
e isso precisamente
nos dias mais difíceis da minha vida.

Então perguntei a Deus:
“Senhor, eu quis seguir-Te,
e Tu prometeste ficar sempre comigo.
Porque me deixaste sozinho,
logo nos momentos mais difíceis?

Ao que Ele respondeu:
“Meu filho, Eu te amo e nunca te abandonei.
Os dias em que viste só um par de pegadas na areia
são precisamente aqueles
em que Eu te levei nos meus braços.”

 

UMA HORA AO PÉ DE Ti, SENHOR

 

A minha vida é uma escada rolante sem parar, 

apenas transporta a farinha das ilusões.

Um barco enorme carregado do carrinho

de coisas e mais coisas para um celeiro insaciável

cujas portas nunca se fecham – perdeu-se a chave.

 

Sem tempo para nada nem para ninguém,

sou um moinho que não pára e não produz farinha.

Na vertigem do tempo que me devora, corro, corro 

como folha levada pelo vento das fúteis ambições 

esquecido de mim e do meu fim.

 

Sinto-me cansado, exausto de tudo e cheio de nada.

E paro. Faz-se silêncio. Esqueço o celeiro.

Na suave brisa que me toca amorosamente 

ouço uma voz: vinde a mim, vós que estais cansados 

e eu vós aliviarei. Sento-me na fulguração dessa voz.

 

A paz e o sossego penetram nas minhas veias 

e chegam ao meu coração. Milagre!

Nunca tinha sentido tão funda alegria

e peço que a voz continue o seu caminho.

Um relâmpago suave e bem luminoso brilhou em mim.

 

– És criatura de Deus, tens em ti o selo da eternidade.

Porque te afadigas? Bem sei que o tempo é voraz e duro, 

fora do tempo não podes crescer. Tens trabalho, família,

deveres sociais e horários a cumprir.

Mas não desbaratas tanto tempo em bagatelas?

 

Uma hora, ouve bem, uma hora ao pé de Mim é o paraíso

que procuras e não encontras – lá fora apenas neva.

Um relâmpago mais luminoso cintilou em mim.

E compreendi a grandeza que me veste como um tesouro.

Caí de joelhos e rezei:

 

Infeliz, procurava longe o que estava perto, dentro de mim.

Obrigado, Senhor. Agora sou eu e mais do que eu,

sou alguém que encontrou o Amigo, e juntos faremos da vida 

o céu, ainda que tenha de crescer nos espinhos.

Obrigado, Senhor.

 

Ámen!

                                                 Jguerra

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