“dependo, como humano da comunhão com a humanidade dos outros(…) Só quando convivo, em pensamento, palavras e obras, vivo e sou realmente eu.”

Miguel Torga, Diário, Coimbra, 20 de Outubro de 1984


Estamos à porta da casa e convidam-nos a entrar. Esta casa é um pouco diferente das outras. Entrar e percorrer todas as divisões leva-nos até ao espaço nobre, a sala onde é servida a mais saborosa das refeições. Temos para servir um prato simples, a própria vida, aquela que brota da presença do amor trinitário. Acreditamos que cada porta se abre sempre que cada um abre os seus braços e oferece o seu coração para que haja verdadeiro encontro com esse amor tão puro e casto que só poderá ser o próprio Deus, dando-se. A dádiva, o grande milagre da dádiva, é Deus no que tem de mais próprio e é a nossa casa, é a casa de quem nunca fica em casa e está sempre em saída.

É assim que desejamos definir a nossa casa: uma comunidade que está sempre em saída. Parece estranho. Normalmente pensamos uma casa como espaço onde entramos e nos recolhermos. Quem se acolhe no amor, traz consigo todos aqueles que o amor colhe e este nunca se encolhe. Cada um dá o que colhe desta relação para que todos participem da peculiaridade do outro. Sim, quando nos reunimos ou celebramos, quando festejamos ou nos unimos para construir, em tudo, cada um, deixa mais do que uma marca, vive da idiossincrasia do encontro.

A nossa marca distintiva é mariana, porque com Maria aprendemos a viver cada encontro com Deus ou com os outros. Aprendemos a fazer dos nossos encontros uma só história, uma história de salvação. Deixamos que tudo dependa de Deus e vivemos como se tudo dependesse de nós, porque Ele só precisa do nosso assentimento. Maria ensina-nos a fazer tudo o que o Seu Filho Jesus nos disser. É para isso que vivemos, para manter bem alto a memória viva de Jesus vivo.

O momento mais alto do encontro acontece quando vivemos o encargo que Jesus nos deixou: “Fazei isto”. Isto fazemos, porque sabemos que seremos felizes. A nossa comunidade vive desta alegria e, sem esta alegria, já não sabe o que é viver. A vida acontece sobremaneira no encontro que nos faz fazer como Jesus fazia.

Em cada catequese, estamos a fazer com que outros também o façam e experimentem a alegria de serem encontrados por Deus, em Jesus Cristo, pela ação do Espírito Santo. Em cada tarefa caritativa estamos a viver a alegria da presença perene do Senhor, sempre que a vida se reparte. Em cada celebração vivemos o encontro das vidas que partem o pão sobre a mesa que alimenta a família. Uma família simples, porque sabe fazer pão, sabe fazer como o Senhor ensinou – partir o pão. Só quem sabe partir o pão é que sabe fazer pão. No altar o Senhor parte a Sua vida no pão e esta é a nossa casa, o partir com Jesus para partilhar n’Ele o pão que dá vida, a Sua vida e a nossa na d’Ele.
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