“Preciso de ser outro
para ser eu mesmo”

Mia Couto


Somos um mundo em (des)construção. No combate de cada dia, deixamos cair o Ser em ruínas, levantando do pó o Homem Novo, crente na Palavra de Deus, a única arma que desarma.

Ver Tomé como um gémeo de todos os crentes de todos os tempos é o convite que a leitura do Evangelho nos faz. O crente de hoje está mais próximo de Tomé do que qualquer outro discípulo, sem querer generalizar e sem esquecer tantos e tão grandes testemunhos de mártires e de homens e mulheres da mística que nos abrem outras perspectivas. Mesmo assim, na minha humilde opinião, todos se aproximam um pouco da vivência de Tomé.

Há já algum tempo, podemos mesmo dizer séculos, que a fé cristã, pelo menos na Europa, tem vindo a perder a sua supremacia cultural e geradora de sentido para a quase totalidade da população. Depois dos chamados mestres da suspeita e dos “teólogos da morte de Deus”, ficaram tempos de indiferença. Mais do que um ateísmo teórico, passamos para o um prático e bem mais difícil. Já não há a luta pela defesa de princípios ideológicos, mas a total indiferença. Se Deus existe ou não, não interessa, porque nada mudaria, cada um constrói o cardápio com que deseja viver. São tempos de niilismo, como muitos definiram?  

Hoje seria interessante ler estes tempos à luz do discípulo Tomé e da comunidade dos discípulos. Este afastamento da Igreja de tantos e tantos não pode ser considerada pelos crentes nem como o inimigo a combater nem como o perigo a conjurar, diz-nos Salvador Ros Garcia. Uma atitude dessas levaria a um entrincheiramento da Igreja. Talvez seja melhor ver como um desafio, que nos leva a viver como a primeira comunidade, que teve que dar tempo a Tomé para que conseguisse novamente sentar-se  à mesa. Continua Ros Garcia: Deus não desapareceu deste tempo  do qual também é “contemporâneo” e porque na descrença surgem e cultivam-se também as questões radicais, os valores incondicionais, a vida humana continua a estar dotada de uma dignidade inalienável… (Deus) está-nos a chamar para uma mudança profunda na realização da fé, a uma verdadeira “recomposição do crer” a partir da experiência pessoal e de uma conversão do coração que comporta nada mais e nada menos do que um novo nascimento.

Este desafio permite uma reconfiguração do crente, que jamais será por ouvir dizer ou pela cultura que absorve, e será sobretudo um “místico”. A fé brotará do encontro com o Senhor, presente numa comunidade com consciência lúcida da debilidade da própria fé; a humildade de quem já não se proclama melhor do que os outros e se reconhece pecador como qualquer um; a paciência diante de um mundo no qual existirá sempre o trigo e o joio; o reconhecimento de um Deus que é maior que a nossa consciência e que as nossas ideias, imagens e representações d’Ele e que pode fazer-se presente também entre os que não são dos nossos; o respeito pelo silêncio como forma de revelação de Deus; a solidariedade com os que padecem o seu ocultamento; a espera confiada de uma presença que não depende da nossa iniciativa e que se a seu tempo dará os seus frutos por pura graça. São os desafios que Salvador Ros Garcia diz que as comunidades têm diante de si.

Como chegamos até aqui? Talvez seja a questão mais natural diante do panorama religioso da Europa. As Igrejas a esvaziarem-se, a falta de vocações para cobrir todas as necessidades e o surgimento de tantas outras propostas, religiosas ou espirituais e até mesmo de verdadeira indiferença. Gilles Lipovetsky faz-nos uma breve resenha histórica dos passos dados pela humanidade a nível da moralidade e que nos poderá ajudar a compreender melhor o caminho tomado: A primeira fase… corresponde ao momento teológico da moral. Até ao início do Século das Luzes, a moral é inseparável dos mandamentos de Deus… Fora da Igreja e da fé em Deus, não pode existir virtude. Apenas o Evangelho, a fé num Deus justiceiro, e os castigos do Além permitem garantir eficazmente a moral. Segunda fase, laico-moralista das sociedades modernas. A partir das Luzes, com efeito, os modernos procuram lançar as bases de uma moral independente dos dogmas religiosos e da autoridade da Igreja. Os princípios morais são, desde então, pensados como princípios estritamente racionais, universais, presentes em todos os homens, ou seja independentes das confissões teológicas… O homem pode aceder à virtude sem a ajuda de Deus e dos dogmas teológicos… este processo de secularização tirou? dela uma das figuras essenciais: o dever absoluto, a ética do sacrifício. A seguir ao dever da religião houve a religião do dever, o culto laico da abnegação e da devoção sem falhas ao serviço da família, da nação ou da História. A terceira fase, “pós-moralista” rompe e continua com o processo de secularização… Sociedade pós-moralista quer dizer aquela que estimula, mais os desejos, o ego, a felicidade, o bem-estar individualista, do que o ideal da abnegação. A nossa cultura já não é dominada pelos imperativos do dever maximalista, mas pela felicidade e pelos direitos subjetivos. A cultura da ética de sacrifícios, que vigorou amplamente até meados do nosso século (século passado), foi liquidada… Não é a ideia do dever, enquanto tal, que se afunda, mas a ideologia do dever disciplinador e hiperbólico, ou seja, o valor da renúncia suprema a si próprio, no altar da Família, da História, do Partido, da Pátria, da Humanidade… Reconhecemos ainda os deveres negativos: não matar, não roubar, não causar sofrimento; mas já não os deveres positivos, regulares e sistemáticos: a dedicação a causas exteriores a nós próprios.

A fé de Tomé ajuda-nos a encontrar uma luz ao fundo do túnel para esta situação. A fé terá que ser mais personalizada, o que implica uma outra maturidade e não tanto fé teleguiada pelo autoritarismo do complexo doutrinário ou “clerical”. Hoje, o crente é mais ao estilo de Tomé do que de João. Mas o desafio para as comunidades é que todos passem pela experiência de Tomé para chegarem à vivência de João, junto da cruz de Jesus. Afirma José María Mardones: Mais do que as explicações será importante a experiência humana primordial e radical. Nesta situação cultural e epocal fica claro que a fé alimenta‑se fundamentalmente da confiança. A fé aparece agora como a esperança iluminada pela razão, mas sustentada pela relação, por uma experiência de encontro que ilumina amorosamente toda a vida. A fé aparece como aquela luz gozosa de um sentido na subjetividade de uma vivência… é uma experiência que afeta a pessoa no seu todo. Possui uma dimensão conceptual ou de pensamento, ainda que frágil, mas também de vivência interior ou de coração e passa pelas “mãos” ou o compromisso moral solidário e consequente. Pensamento, coração e mãos, ou seja, o homem completo é afetado por esta experiência da fé.

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