Ao longo das próximas newsletters, vamos dar voz aos nossos missionários na Guiné 

Um mês pós missão…

É difícil descrever a missão na Guiné em palavras. Olhar para o que escrevi antes de ir e reviver aquele mês repleto de um turbilhão de emoções é ver que a vida baseada na comunhão, na partilha, na simplicidade, na gratuidade, na amizade e no amor vale mais que tudo. Aproximarmo-nos de pessoas frágeis, com histórias de vida que incomodam qualquer um e ver nos seus rostos o mais belo e contagiante sorriso é absolutamente indescritível. Lembro-me da ida a Gã-Perto com uma memória disso mesmo. Quando vi aquele povo com tão, mas tão pouco unido para escutar as palavras de Deus num espaço com uma pequena cruz de madeira senti quase como se tivesse borboletas na barriga e uma vontade de chorar de felicidade e de os abraçar… E recordar esse momento é como se eu estivesse lá outra vez, o sentimento é o mesmo, mas ainda mais intenso porque as saudades começam a chamar por mim… Não só esse momento, mas todo o mês vivido.

Antes da ida à Guiné eu sentia-me uma pessoa pouco confiante, fechada, um pouco perdida, que não valorizava o que realmente é essencial e não trabalhava o suficiente para superar essas minhas fraquezas. Cuidava e procurava cuidar dos outros que estavam à minha volta, mas não dava tempo para cuidar de mim e sarar as minhas próprias feridas. Durante a missão e agora no regresso a casa percebi que uma das minhas necessidades era mudar um pouco o caminho que tenho vindo a fazer. Esse caminho abrange várias partes da minha vida: o meu crescimento enquanto estudante, enquanto cristã, enquanto pertença a uma familia, enquanto voluntária, mas, acima de tudo, enquanto pessoa.

Como aluna, eu acho que andava perdida em notas, em insucessos, em incertezas quanto ao curso… Agora que olho para trás percebo que sim, eu sentia-me realmente perdida, mas também não valorizava a oportunidade que me foi dada e que me podia esforçar ainda mais, isto porque não confiava em mim e nas minhas capacidades. Percebi também a importância que os direitos humanos e a sua consagração têm no mundo e que nem sempre os valorizamos como deveríamos. É necessário lutarmos todos os dias para que esses direitos continuem a ser assegurados e que sejam assegurados em todo o mundo. Não só lutar, mas valorizar a proteção que nos é dada e saber usá-la. Relembrar a força de vontade dos miúdos, dos professores e formadores e dos funcionários com quem nos cruzamos que, apesar das suas dificuldades, todos os dias saiam de casa para vir aprender connosco e nós com eles e trazer essa imagem para a minha vida é um abrir de olhos autêntico. Tirar um curso e ter uma profissão deve ser em prol de ajudarmo-nos uns aos outros a crescer a cada dia e a criar espaços para esse crescimento para as futuras gerações.

Como cristã é perceber a beleza do projeto que Deus quer para nós, perceber que a forma de continuar unida à nossa comunidade guineense é através da oração, da Eucaristia, do partilhar a vida com a comunidade paroquial, do cuidar um dos outros, do crescermos em conjunto. Estar na Guiné foi estar próxima de Deus, foi conviver com Ele em cada dia, em cada desafio, em cada obstáculo, em cada rosto. Quando regressei a Portugal tentava quase todos os dias dedicar um pouco do meu dia a rezar as laudes, as vésperas, a escrever algumas palavras quando sentia a necessidade de as expressar o que sentia, não só porque sentia falta da rotina que tínhamos, mas porque realmente sentia essa proximidade, sentia que a minha fé crescia mais um bocadinho e porque me sentia bem, em paz e feliz por ter esses momentos. Algumas também foram as vezes em que me entreguei ao silêncio enquanto contemplava a beleza que a natureza nos oferece, à procura de algo que me alimentasse a falta que o tempo de partilha e reflexão em grupo me estava a fazer. A vivência da fé é um dos meus pilares e sinto que a Guiné fez também com que eu encarasse com mais clareza essa realidade. Não é por acaso que me encho de alegria por viver momentos e experiências com a comunidade paroquial. Não me sinto feliz só porque estou com os meus amigos, mas porque me sinto em casa, acolhida pelo amor de Deus, pelos desafios que nos lança, pelo amparo que Ele nos dá quando caímos e precisamos de nos levantarmos outra vez. Por isso fui batizada e crismada, para continuar a fortalecer a minha fé enquanto filha de Deus, enquanto membro da Igreja, deste lugar que é hospitaleiro e que se deixa transformar também pela evolução da humanidade aos poucos e poucos. E viver essa fé com aquele povo é belíssimo, é puro, é receber e dar gratuitamente amor, é comunhão. Sei que ainda tenho muito para aprender e desenvolver em mim como cristã, mas sinto que a missão potenciou uma vontade maior de crescer a esse nível, de me deixar questionar e não me conformar com respostas de “é assim porque sim”, de caminhar mais em direção a uma vida simples e com mais realce nos valores e dar espaço a esse projeto de amor, para que me transforme a cada dia e continuar em missão.

A nível familiar tenho tentado viver mais da partilha com os que me amam, deixar ser ajudada e não criar barreiras porque não é isso que eu preciso, antes pelo contrário. Viver na felicidade está em permitir que os outros vivam comigo os momentos bons e maus que vou tendo na minha vida e na vida dos que me rodeiam também. Não só a minha vida, mas também a vida da minha família. Quero criar mais espaços de comunhão com eles e saber aproveitá-los da melhor maneira.

Como voluntária quero continuar esse trabalho que não é trabalho, mas sim um dos meus suportes. Há pessoas que dizem que não conseguimos ajudar os outros e estar com eles se não estivermos bem connosco mesmos. Esse foi um dos meus maiores medos antes da nossa ida à Guiné. Durante os últimos meses passei por uma fase difícil e estava com um receio enorme de não estar disponível para os outros por não estar emocionalmente bem. Estando lá e depois no regresso percebi que era completamente o oposto. Estar com os outros foi a minha grande cura, não só porque estava distante dos meus desgostos, mas porque percebi, mais uma vez, que estava a atribuir demasiado peso a coisas que não tinham essa relevância e que eu achava que tinham e também por não estar a saber tirar a aprendizagem que esses golpes me queriam dar. A Guiné só me fez querer estar mais disponível e viver na humildade e na sinceridade com os outros. Fez-me perceber que é na união e no amor que está a solução que vai revirar a nossa história para o caminho da felicidade novamente.

Um mês passou e a minha vontade de continuar em missão está bem presente. Quero fazer missão em mim mesma, nos outros e na comunidade. Quero continuar a procurar viver da simplicidade, da gratuidade e a deixar-me transformar pelos outros, por mim e pela fé.

Catarina Lima

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