Flores, Afonso Cruz

Não é fácil eleger um livro. O apetite para livros varia consoante o estado de ânimo, o tempo, a cor do céu, e sei lá que mais. Assim como para os autores: por vezes devoro livros do mesmo autor uns atrás dos outros (aconteceu com o Eça, ou com o Gabriel Garcia Marques por exemplo. Ah, e com a querida Alice Vieira). Outras vezes, há autores tão densos que preciso de alternar com leituras mais ligeiras. É o caso do Saramago ou do Valter Hugo Mãe. Também há fases em que a necessidade de foco exige policiais e dedico-me ao Ellery Queen e os seus raciocínios rebuscados em prosa fácil. E as tirinhas? Calvin&hobbes, Garfield, Mafalda. Não tenho um género literário preferido. Vou lendo de tudo, arriscando, por vezes porque gosto da capa, ou de uma crítica, ou de um título. Claro que ocasionalmente há um que me decepciona e que leio até ao fim apenas por teimosia. E dois ou três que não fui capaz de concluir.

Agora pedem-me que recomende um e, quiçá por ser mais fácil, escolhi aquele que estou a ler. Quando digo fácil, é porque acho muito fácil apreciar Afonso Cruz.

O Afonso Cruz encanta-me. Não é um escritor de raiz, licenciado na área das letras. O Afonso Cruz é um artista. É formado em Belas Artes e, talvez por isso, parece um escultor de frases. Mesmo antes de apreendermos o significado, as palavras de Afonso Cruz servem para ser contempladas, como pequenas obras de arte.

A juntar a isso, tem toda a riqueza dos personagens, das emoções que carregam, dos passados e destinos insólitos, que nos leva, sem entendermos ao certo porquê, a descobrir resquícios nossos e segredos que não sabíamos ter.

Este livro chama-se “Flores” e começa assim:

“Estava junto aos escombros do meu pai, com os restos dos nossos sentimentos à deriva. O meu corpo ainda dizia o nome dele muito baixinho, como se fosse sangue a correr nas veias. As lágrimas não caíam, ficavam suspensas numa antecâmara qualquer do coração ou lá de que lugar é esse onde as lágrimas são laboriosamente fabricadas.”

É um livro que fala de perda e de amores. E de amores que se perdem. E de amizades improváveis que se ganham. É um livro que fala de gente como nós, das nossas faltas, dos nossos vizinhos, do quotidiano que, às vezes, mata as memórias. E é um livro onde, numa imagem muito bonita, um homem, no seu reflexo ao espelho, inventa os propósitos que lhe faltam. E que, a perder-se na banalidade do seu quotidiano, vai na demanda das memórias que o seu vizinho esqueceu.

No fundo, é o compromisso entre a realidade e os sonhos, o dia-a-dia e as ambições, a vida, as ilusões, o amor e os desgostos. Tudo isso contado em palavras esculpidas pelo cinzel de um escritor que é, antes de mais, um artista. 

Cláudia Quaresma

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