As Oito Montanhas, Paolo Cognetti

De um certo ponto de vista, posso dizer que não é este o livro que estou a ler, porque já o li há já bastante tempo. Mas, de um outro ponto de vista e talvez mais verdadeiro é o livro que ainda estou a ler… isto porque tenho dúvidas se alguma vez consegui acabar de ler um livro, assim – definitivamente – para não mais voltar a ele.

Tenho uma relação estranha com os livros… primeiro gosto de os dar, acho que os livros são como o ar… e o ar não é meu, nem de ninguém… actua sobre nós,  faz-nos viver e ajuda os outros a respirar e também a vivermos melhor… depois, uso-os; são material que me toca e eu toco-os,  quanto mais me tocam e me incomodam ou ferem ou deliciam, mais eu os risco, desenho e rasuro… corrijo, pinto, berro-lhes por vezes graficamente… e esses, por uma questão de intimidade, não os dou, nem o autor gostaria, que partilhasse assim as nossas conversas; depois, há uma outra particularidade, compro o mesmo livro várias vezes… não é porque os dou, que também é, mas essencialmente porque gosto deles e quero, assim, agradecer ao autor esse amor que me deu e o tanto que me ensinou ou fez viver.

Há livros que compro como uma causa, como sentido de defesa de direitos humanos, com paixão, como puro apoio ao autor, ao editor, ao tradutor, ao designer… às vezes penso que tudo isto é apenas justificação para comprar mais livros. Mas, já estou numa idade que não preciso de me justificar, e o que é incrível é que, vendo bem, sempre tive esta idade… acho que nunca precisei de me justificar para nada, muito menos para comprar livros e música e tudo o que amo de verdade.

Consideradas estas três questões, comprar livros, desenhar nos livros e dar livros, compreende-se que passo um tempo considerável nas livrarias e gosto bastante disso: gosto de os cheirar, tocar e de os ler, sempre de trás para a frente e assim conseguir ter uma visão do que se vai comprar para depois desfrutar.

Geralmente sei o que vou comprar e, quando entro numa livraria,  irrita-me sempre o homem que me tenta impingir uma promoção quando vou lá comprar cinco ou seis livros escolhidos a dedo, quase sempre,  porque só quero aqueles e não outros, porque só quero aquele traduzido por esta ou aquela pessoa e não outro… e sou investido por sugestões avulsas que me fazem lembrar o Satisfaction dos Rolling Stones quando cantam : “When I’m watchin’ my TV and a man comes on and tells me

How white my shirts can be

But, he can’t be a man ‘cause he doesn’t smoke

The same cigarettes as me” enfim..  I cant get no satistaction.

Como é possível ler Dostoievski se não for bem traduzido? É uma arte a tradução que aprendi com J. Bento e outros.  E isto faz-me lembrar um dos meus autores favoritos, e de quem compro às vezes o mesmo livro – Villa-Mattas. Estava eu no Brasil, tinha acabado de ler um livro dele em Portugal quando, numa livraria, encontro o mesmo título, em brasileiro. Claro que comprei… não era igual, mas gostei de ler outra vez, e muito bem. Mas era outro livro!

O português de Portugal é uma língua lindíssima, saborosa onde o mais cru parágrafo, parece quantas vezes, uma delícia.

É uma cozinha de excelência o que esta língua nos oferece. Tenho a ideia de que a nossa língua está para a literatura como o inglês para a música e o americano para o cinema… é um pleonasmo dizer que é bom! É uma ideia, não sei se é válida e pouco importa.

Mas voltemos ao princípio, o livro que estou a ler e que já li e agora vou lendo, volto a ler e a procurar esta ou aquela ideia, um ou outro parágrafo para aplicar num ou noutro texto, num ou noutro desenho, num projecto, numa decisão ou numa curiosidade que ando a investigar… este livro é de um jovem autor italiano de seu nome Paolo Cognetti.

Esta revisita aos livros, leva-me a considerar a ideia da minha biblioteca ser uma piscina onde mergulho – todos os dias – para me divertir, proteger, progredir, conhecer mas sobretudo para Saber… que é uma outra coisa, a mais importante, a que está para além do conhecimento.

E é precisamente de uma particular sabedoria que nos questiona este livro que hoje aconselho a lerem.

O título é “As oito montanhas”. Conta-nos uma história bela sobre a relação entre pai e filho e a vida deste na construção de uma personalidade, de uma amizade, de uma casa, de uma não familia e de uma comunidade que sofre, como nós sofremos, com o avanço da torrente de novas ideias, que nem sempre são boas ou melhores…  entre passado e futuro, de onde vimos e por onde vamos.

Este livro tece uma fina seda de situações que devemos considerar,  isto se queremos ter consciência da nossa vida e conhecermos a importância que lhe atribuímos.

São inúmeras as questões… são inúmeros os momentos que nos impelem à reflexão, sobre o valor das coisas e das pessoas, dos compromissos que secretamente estabelecemos, uns com os outros e com o passado, com a memória e com um ideal de respeito pela vida seja ela de que forma  for ou de que forma se manifeste: Amor, amizade, família, pensamento, lugar… lugares físicos, emocionais, espirituais, a alma e o símbolo do que nos rodeia. Percebemos, assim, que há muito para além do que os nossos olhos vêem. E ainda bem.

Contudo, e para terminar, há uma questão fundamental que o autor coloca, que dá nome ao livro, e só é referida numa simples página quando, numa das viagens aos Himalaias o guia pergunta ao nosso personagem (escrito de um modo mais bonito mas nao irei transcrever) desenhando no chão: O que é mais importante na vida? se subir a montanha mais alta, se percorrer as oito montanhas que a circundam?  É uma questão que, de certo modo, e nas diferentes circunstâncias da vida, todos nós devemos tentar saber responder.

Pela minha parte, sei bem o valor da resposta e, com uma mão cheia de alegria,  mas também de sofrimento, de aprendizagem e de muita dedicação se faz a Vida … com as pessoas naturalmente, com os outros, para os outros e, em conjunto ser possível experimentar e ultrapassar as inúmeras montanhas que a vida nos dá… para a viver! Pois é a consciência da Vida o que mais importa!

Nuno Lacerda 

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