– Fui para a Patagónia!

Pede-me uma amiga de longa data e grande estima para escrever uns breves parágrafos sobre o livro que tenho na minha mesa de cabeceira, ou seja, o livro que estou a ler.

É o livro “Anatomia da Errância” de Bruce Chatwin que trago para finalmente dar resposta ao que me foi solicitado. Este poderá ser o livro que hoje tenho à cabeceira de mim. Procurei-o por sugestão de uma amiga, encomendei-o e delicio-me a seguir viagem com este escritor que muito tarde chegou à literatura, abandonando uma vida de jornalista, recusando uma serena condição de existência acomodada que a sociedade a muitos oferece em forma de carreira e parte para o mundo, demitindo-se, numa carta onde laconicamente diz o que quantas vezes quisemos já dizer ou fazer: Escrevendo: “Fui para a Patagónia!” E foi! e esse livro é o testemunho dessa viagem, e esse livro não será, na essência, o que todos os livros devem ser?

– Vamos, por isso e com coragem, para a Patagónia que trazemos dentro de nós!

Anuí em escrever este comentário sem pensar no que me iria meter. Isto  porque na realidade não tenho apenas um livro mas são vários os que todos os dias visito, leio, saboreio e arrumo como se de um ritual se tratasse.

Pensei em livros, pensei na minha relação com os livros… lembrei as carrinhas da Gulbenkian quando nos traziam o amanhã e as notícias de um mundo que estas tão simples carrinhas (Citroen se bem me lembro) me faziam chegar… e com elas o sonho, a ideia de uma outra dimensão, a cor, as capas e os seus desenhos e isso era um sinal de liberdade e de libertação. Muitas vezes desejei ir nessa carrinha, de terra em terra, conhecer e dar a conhecer o que as pessoas escreviam e diziam nas páginas de um livro.

Aprendi a ler deitado no chão da cozinha, num soalho rosa-sabão enquanto a mãe preparava o jantar. A cozinha era o centro da casa, a mãe o centro de nós… lembro de ler “O Comércio do Porto” e soletrar as notícias do jornal que meu pai diariamente comprava e lembro as longas horas que passei deitado sobre um planisfério imenso onde aprendia a ler os nomes dos países, o nome das cidades, de percorrer o mar mediterrâneo, a conhecer a costa de Itália e encontrar Bari, o nome distinto que o meu cão, orgulhosamente, passou a ter.

Sobre o jornal, sobre o mapa, manuseando livros que sobre a escrivaninha do telefone facilmente tinha acesso, juntei letras e sofregamente aprendi a ler e a viajar.  É estranho lembrar tudo isto e compreender porque associo o gosto de ler ao gosto de viajar. Hoje percebi porquê.

Foi mais tarde, já com a primária feita, o exame realizado, onde tive de dizer com alguma imaginação as estações da linha de Benguela quando, ainda de calções, me fui inscrever na biblioteca Gulbenkian de Espinho. Procurava as aventuras de Tom Sawyer e de Huckleberry Finn… li um pouco no silêncio pétreo do salão norte do edifício dos Paços do concelho, sob o olhar atento da “senhora da biblioteca” –  uma instituição que durante anos tomou conta de nós e dos livros que somos. Saí depois, tropeçando no degrau de mármore que separa o átrio da Câmara e o acesso à simétrica e azulejar escadaria que sempre, e ainda hoje, gosto de ver. Trouxe para casa o livro de Daniel Boone que a televisão também contou em tardes de sábado.

Em casa descobri cedo “O Retrato de Ricardina” de Camilo, depois “Esteiros” de Soeiro Pereira Gomes e chorei muito… descobri que os livros têm alma e, por vezes, são cruéis como nós. Com o meu amigo Chico Fidalgo, entre muitas coisas, tornamo-nos um dia jornalistas e editores – não sei porquê, nem como – mas as nossas brincadeiras, o nosso tempo livre passou a ser fazer jornais, e fizemos muitos  e muitas publicações  com desenhos colagens e recortes, em tiragem única, onde dávamos a conhecer o mundo e ao mesmo tempo descobríamos o mundo… e era imenso esse mundo onde nos encontrávamos, onde nem as nossas casas, nem as nossas ruas, nem o nosso Espinho, parecia ter lugar.

Não me recordo das secções que editávamos ou quem era responsável pela cultura, desporto, xadrez, local ou personagens… não sei hoje, nem me importa, mas recordo que lia muito e muito desenhava para ilustrar as notícias que em cumplicidade e em sintonia produzíamos, ali nos nossos quartos, entre deveres para fazer, ensaios culinários, que também fazíamos na produção do melhor salame da humanidade e a nossa coleção de selos que ainda hoje persigo com teimosia ou resiliência… persistência talvez!  Tal como ler e fazer.

Ler é vontade de resistir, é ser. Um livro não muda nada e muda tudo. Pode não mudar o mundo mas, um livro, um bom livro, muda-nos certamente, pode transformar-nos e por essa via somos capazes de mudar o mundo, de o fazermos melhor.

Por isso se deve ler, sem entreter, sem o sentido de passar o tempo que é precioso e divino, mas de aprender, de viver, de ver, de fazer, de sentir e por essa via – das sensações – agir sobre o mundo.

Dos livros que agora habitam os meus dias, quero destacar dois. Ainda não acabei de ler nenhum deles e por isso não me quero pronunciar sobre a sua qualidade literária, poética ou narrativa, isso é outra matéria que o tempo nos ensina: avaliar só por comparação, com distanciamento e pelo que fica ou simplesmente nos lembra. A memória é um bom filtro para quase tudo, uma importante lição que devemos respeitar e por isso cuidar.

“O homem do casaco vermelho” de Julian Barnes, é o livro que comecei a ler, há uns dias. É um livro diferente do que Julian Barnes nos habituou. A escrita de Barnes é feita com frases irritantemente perfeitas.

Não gosto da perfeição, sou dado ao erro e à tentativa, à aproximação e à incerteza, à margem, à conquista de novas fronteiras e, por isso, gosto do imprevisto, do processo e não do fim, e Barnes é, de um certo modo, o sentido perfeito desse fim. Estranhamente é  este o título de um dos seus melhores livros: “O sentido do fim” que aconselho a ler e a sentir, calma e intensamente, como quem experimenta um bom – mas velho – vinho do Porto,  em pequenas doses, e em cada uma delas, uma viagem, uma descoberta.

Nuno Lacerda 

Imagem de StockSnap por Pixabay 

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