A NOVIDADE DA
PRIMAVERA NAS MÃOS

Tudo partiu e nem um osso fraturou. É agora que a chuva faz o deserto ser fecundo, os pobres encherem as mãos? Quando tudo está encerrado e o medo roi por dentro os ossos, as janelas esquivam-se aos olhos e os ventos não são de esperança. A humanidade não pode ser adiada e se não sai é porque precisa de entrar. Jesus entra sem porta nem janela. É Ele que faz sair e deixa entrar a luz que ilumina os caminhos encerrados no Inverno. Nem um só osso fraturado nesta fratura da humanidade. É por aqui que passa a luz que enche as mãos pobres do deserto e faz primavera.

DOMINGO
«Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos; aproxima a tua mão e mete-a no meu lado; e não sejas incrédulo, mas crente».
(Jo 20,27)

SEGUNDA-FEIRA
Não escrevas que não sabes. Deixa que se inscreva em ti quem sabe fazer novo tudo o que já é passado.

TERÇA-FEIRA
Recolhe os dias para peneirar o vento. Soltam-se no ar e assim desenhas o vento que os leva e é capaz de os voltar a semear.

QUARTA-FEIRA
Há um excesso que se faz nas mãos que desejam abraçar todos os corações.
Quanto mais desejam, mais vazias as mãos.

QUINTA-FEIRA
A entrega é feita de muitas ocasiões e nem todas são de sangue, mas todas fazem-no correr até às pontas dos dedos para que tudo seja escrito de vida.

SEXTA-FEIRA
A vida escreve-se no chão onde habitam as horas que se recolhem aos bocados para serem distribuídas como pão.

SÁBADO
A luz do dia entra pela vidraça do olhar e rompe a ignota e desesperada noite de quem partiu sem porto onde regressar.

ORAÇÃO
Queres mais provas, Tomás?
São chagas abertas no meu corpo
E não basta rezar: meu Senhor e meu
Deus!
Há que gritá-lo e perguntar por quê;
Há que curá-las com ternura e saber;
Há que carregar muitas ligaduras,
Muitas curas…
E todo o amor que temos sonhado!
Aproxima a tua mão outra vez, Tomás!

Florentino Ulibarri

POEMA
Quando vier a Primavera,
Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes
que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem
importância nenhuma.
Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente,
porque ela era depois de amanhã.

Alberto Caeiro

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