UM PORTO DE PARTIDA

NA PALAVRA

A condição de ser porto de partida faz de cada acontecimento uma viagem sem cais para atracar. Remete-nos para nova viagem e quem sente os dias assim experimenta o absurdo de uma palavra que mal se sabe dizer. A dislexia de nunca conseguir o encadeamento suficiente para narrar a palavra. A morte de Jesus interrompe a viagem de forma abrupta? A leitura findou?
Há esperança de chegar ao cais onde a palavra está dita. Sem Jesus não há narrativa que ligue a palavra à vida. Só Ele é a Palavra que faz de cada porto uma letra para articular a Palavra. A viagem da
articulação do dizer até compor uma vida. Jesus é o silêncio onde cada palavra se pode dizer. A cruz que carrega faz de cada viagem um espaço doloroso para uma manhã de Páscoa. A vida fica dita?
Tudo sempre a dizer.

DOMINGO
O centurião que estava em frente de Jesus, ao vê-l’O expirar daquela maneira, exclamou: «Na verdade, este homem era Filho de Deus». (Mc 15,39)

SEGUNDA-FEIRA
O amor a Jesus apenas é possível naquele que reconhece a inabilidade para ligar a sua vida.

TERÇA-FEIRA
A rejeição de Jesus deixa os dias à deriva. Não fazer mal ao outro já é sair um pouco de si. A grande viagem é o bem que podemos fazer.

QUARTA-FEIRA
A intimidade com Jesus faz grandes os pequenos dias e pequeno o esforço para fazer do outro um companheiro de viagem.

QUINTA-FEIRA
Jesus é a leitura da palavra que nos diz. N’Ele é possível viver cada momento como único e irrepetível.

SEXTA-FEIRA
Sem Deus o instante faz-se urgente. Em Deus o instante faz-se bênção.

SÁBADO
Sem Deus a vida é uma passagem. Em Deus é Ele que passa e nos liberta.

ORAÇÃO
Faz-me uma cruz simples,
Carpinteiro…
Sem aditivos
Nem ornamentos…
Que se vejam despidos
Os madeiros,
Despidos

Que não haja um só adorno
Que distrai este gesto:
Este equilíbrio humano
Dos dois mandamentos…
Simples, simples…
Faz-me uma cruz simples, carpinteiro.

POEMA
Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua
Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.

Sophia de Mello Breyner Andresen

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