Março 2020. O mês em que a pandemia foi fechando, um a um, os países europeus, foi para mim e para mais 19 pessoas, de 14 países, mês de oração e de silêncio, durante os Exercícios de Mês.  É uma etapa importante na formação como Escrava do S.C. Jesus.  Foi um mês em “confinamento” voluntário, numa Casa de Espiritualidade em Salamanca, com condições para um encontro mais profundo com Deus. Logo no início do Exercícios, diziam-nos que este encontro com Deus seria um dom para a vida de cada uma. Mas frisavam que seria também, um dom para a Igreja, que serviria para servirmos o melhor possível a Igreja e o Mundo. Um Mundo em mudança. Profunda e não anunciada. Fomos sabendo o que se passava: pelos carros que deixaram de circular, pela ausência das crianças no portão do colégio, pelas janelas e varandas que se enchiam de gente de todas as idades, pelos polícias e militares na rua, pelos aplausos que “enchiam a rua”, mas também pela tristeza que ia invadindo a face dos poucos que continuavam a trabalhar na Casa de espiritualidade. Pelas máscaras que passaram a usar… e pelas notícias que nos iam comunicando. 

Como se vive um mês em silêncio num Mundo em mudança tão desconcertante? Para mim, foi um tempo verdadeiramente privilegiado para contemplar: contemplar o Mundo e Deus e procurar um lugar – o de cada um – no meio do contexto em que estamos. Enquanto o mundo se fechou nas suas casas cancelando todos os planos, nós mantivemos o único plano para aquele mês. Posso dizer que nos sentimos em missão em cada dia e muito agradecidas pela oportunidade de acompanhar esta mudança do mundo tão próximas de Deus. Cada Eucaristia diária foi vivida com a consciência do privilégio que era termos celebração e podermos comungar, vivida em união com todos aqueles que não o podiam fazer. Cada final de tarde com aplausos na rua, foi momento de parar e rezar pelo mundo, de dar graças pelas pessoas que conseguiam em cada aplauso pintar o medo com as tonalidades da gratidão e de pedir por aquelas que estavam a trabalhar. Rezar pelas pessoas que morriam sozinhas e compadecer com o sofrimento das famílias que não as podiam acompanhar. 

Partilho convosco que o que de mais precioso sinto ter trazido para estes dias é o valor do que é pequeno. Uma frase de Santa Rafaela acompanhou-me todo o tempo: “Sejamos humildes, pois quando começam as grandes coisas perde-se a cabeça”. Fez-me perceber que a procura da vontade de Deus continua a ser, nestes dias, o caminho para não perdermos a cabeça. O caminho para vivermos bem cada situação. “Quando começam as grandes coisas perde-se a cabeça” porque tentamos reunir todas as nossas forças e capacidades, olhamos com impaciência para o que não controlamos, afligimo-nos com a impotência e podemos ter a tentação de desviar o olhar de Deus e do seu modo de ser e agir. Como nos propôs o Papa Francisco, recordemos que a tempestade não é sinal da ausência de Deus: vamos juntos e Ele vai, sempre, connosco.

 

Filipa Lima, Noviça ACI

(Centro Espiritualidade de Salamanca)

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