Terceiro Domingo

O pão silencioso parte-se onde a vida se faz à altura do amor

Este é o meu ser: uma vida a dar-se. E ser outra coisa é deixar de caminhar entre os descalços da humanidade. Não sei fazer nada que não seja este dar-se, para que me encontrem em qualquer mesa. Ali, na abundância ou na carestia, com mais ou menos ruído, sempre que o pão se parte acontece o silêncio. Como se o tempo parasse para que ali tudo fosse sagrado. E é. Tão sagrado que só acontece porque a vida é dar-se. Caminho de mesa em mesa, passo de mão em mão e partido assim, a vida dá-se a saborear. Neste preciso momento em que o pão se parte, em que chega às mãos de quem não tem mais nada. Ter não é mau… mas melhor é dar-se, fazer-se pão partido para que todas as mãos te possam acolher.

Agora faz silêncio e escuta o milagre da vida a acontecer no pão que se parte para se dar.

Oração

Sabíamos que este era

O mistério oferecido à amizade:

Nosso mistério.

Não era falso o pão, mas não era completo,

Faltava-lhe a côdea salobre,

A participação real dos caminhos

Faltava-lhe saber que era o mistério dos outros

Tínhamos que ver o estrangeiro,

Não conhecer o seu nome, conversar

Com o duvidoso irmão, talvez o inimigo.

Andar com ele, talvez não chegar nunca.

(Cintio Vitier)

O lugar dos dias

Domingo

“Sabendo que fostes resgatados da vossa vã maneira de viver herdada dos vossos pais, não a preço de bens corruptíveis, prata ou ouro, mas pelo sangue precioso de Cristo, qual cordeiro sem defeito nem mancha…” (1 Pd 1,18-19)

Segunda-feira

Sabes fazer pão? Basta que saibas juntar água e farinha ou corações desavindos. Basta que saibas apertar as mãos ou, melhor ainda, que saibas dar a vida.

Terça-feira

Sabes quantos grãos de milho são precisos para fazer um pão? Basta que saibas quantos dias são precisos para fazer uma vida.

Quarta-feira

Sabes quantas vezes passa a mó até fazer farinha? Basta que saibas quantas dores trazes no coração.

Quinta-feira

Sabes de que é feita a paciência do moleiro? Do amor de quem semeia a alegria de dar vida a tudo.

Sexta-feira

Sabes de que é feita a mó? Do tempo que passa e quanto mais passa, mais pão te faz para que o possas partir toda a vida.

Sábado

Sabes de que é feita a vida? De tudo o que nos faz amar mais.

Outras leituras

Poema

O pão e a culpa, Vitorino Nemésio

Filme

The Cave – documentário

Música

U2 – All i want is you

Bach-  Cantata BWV 12 Easter «Weinen Klagen Sorgen Zagen»

Maria Bethânia – Como dizia o poeta

Outras Leituras

Todas as segundas-feiras há um encontro, on line, de leitura orante do evangelho e outras leituras com música cinema ou literatura. Fica aqui mais uma partilha, da participação do Padre Artur,  para quem desejar aprofundar o Evangelho do Domingo anterior.

Terceiro Domingo de Páscoa-  Discípulos de Emaús

O relato dos discípulos de Emaús é dos mais belos e extraordinários do Novo Testamento e de todos que narram a experiência que os discípulos fazem de presença do ressuscitado. Todos, de uma forma ou de outra fazem experiências similares, mesmo que não identifiquem a presença do ressuscitado. Sim, somos todos um pouco como estes dois discípulos, estamos a caminho. Também já tivemos experiências de mesas como a de Emaús, momentos e acontecimentos que nos dizem que há muito mais do que os acontecimentos factuais. Da presença do Senhor, de não estarmos sós neste mundo, mas que ainda não foram suficientemente fortes para que o nosso coração se disponha a entregar-se.

Que experiências são estas? Lugar de silenciamento, onde só o amor fala. Diz Karl Rahner: “ Se se tivesse apresentado a vivência mística separada dos seus fenómenos marginais, teríamos compreendido melhor que estas experiências não são em absoluto acontecimentos que estão muito longe dos cristãos normais. Teríamos compreendido que o testemunho dos místicos sobre as suas experiências refere-se a uma experiência que cada cristão, inclusive cada homem, pode experimentar, mas que, com frequência, não se valoriza ou se reprime.”

O Papa Francisco fala-nos dos Santos ao pé da porta ou de classe média. Todos aqueles que levam uma vida normalíssima e nessa quotidianidade em muitas circunstâncias vivem além do simplesmente estar aí. Permitem que o amor vença e faça fazer do normal, algo de belo, mesmo sendo simples. Com as palavras de Karl Rahner: “só se pode falar timidamente (da experiência do espiritual no homem)… temos calado em momentos em que desejávamos nos ter defendido de algum tratamento injusto? Temos perdoado sem receber qualquer recompensa por isso, mesmo que o nosso perdão calado tenha sido aceite como algo perfeitamente natural? Temos realizado algum sacrifício sem que o nosso gesto merecesse algum agradecimento ou reconhecimento, inclusive sem sentir uma satisfação interior? Decidimos em alguma ocasião a fazer algo seguindo exclusivamente a voz da consciência, sabendo que devíamos responder só da nossa decisão, sem conseguir explicá-la aos outros? Temos tratado alguma vez de atuar puramente por amor a Deus, quando não nos arrebata nenhum entusiasmo, quando nossa ação parece um salto no vazio e quase parece absurda? Tivemos algum gesto amável para com alguém sem esperar a resposta do agradecimento, sem sentir sequer a satisfação interior de ser desinteressados? Se encontramos tais experiências na nossa vida é porque temos tido a experiência de Deus a que nos referimos: a experiência do Eterno”.  Noutro momento da sua grandiosa obra, Rahner apresenta as seguintes possibilidade: “Permitam-nos dizer outra vez, apesar de estarmos a repetir o mesmo sempre e quase com as mesmas palavras que: quando se dá uma esperança total que prevalece sobre todas as outras esperanças particulares, que abarca com a sua suavidade e com a sua silenciosa promessa todos os crescimentos e todas as quedas; quando se aceita e se leva livremente uma responsabilidade onde não se tem claras perspectivas de êxito e de utilidade; quando se aceita com serenidade a queda nas trevas da morte como o começo de uma promessa que não entendemos; quando se dá como boa a soma de todas as contas da vida que o próprio não pode calcular e que Outro as tem como boas, mesmo que não possam ser provadas; quando se corre o risco de orar no meio das trevas silenciosas sabendo que somos sempre escutados, mesmo que não percebamos uma resposta que se possa pensar ou disfrutar; quando alguém se entrega sem condições e esta capitulação é vivida como uma vitória; quando o cair se converte num verdadeiro estar de pé; quando se experimenta o desespero e misteriosamente se sente algum consolo sem consolo fácil… ali está Deus e a sua graça libertadora; ali conhecemos a quem nós, cristãos, chamamos Espírito Santo de Deus; ali faz-se uma experiência que não se pode ignorar na vida… Esta é a mística de cada dia, ao procurar a Deus em todas as coisas.”

Na minha humilde opinião e segundo alguns autores, como Romano Guardini, a realização básica da relação eu-tu com Deus acontece na oração. Para Guardini: “a oração nasce da experiência e do conhecimento de Deus; da consciência de que somos pensados, criados e conduzidos por Ele; da convicção de que tudo o que existe – coisas, acontecimentos, estruturas – depende d’Ele. Deus que se dá a conhecer, só pode ser um Deus que se despoja da Sua condição e se dá a conhecer numa “linguagem perceptível”. Que Deus? um Deus pobre e passional. Diz-nos Guardini: “Que Deus entra em unidade pessoal com a criatura finita, com a natureza humana, e permite esta unidade se mantenha por toda a eternidade; que Se exponha, no completo abandono do santo, às tremendas possibilidade de uma história não santa, tudo isto situa a ideia de Deus diante de uma luz nova… Deus não é só o ser absoluto da filosofia; mais do que isso, é o Deus vivo que se “comprometeu” com o mundo finito. “O Novo Testamento expressa-o dizendo que Cristo voltará. Quando o Filho de Deus veio ao mundo, fê-Lo sob a forma da Kénosis, a vontade de passar inadvertido. Por isso o mundo pode aparecer como o que existe propriamente, e Ele, como um ser “insignificante” que aparece num ponto qualquer do universo, num momento qualquer do tempo, num contexto histórico qualquer.” Nas palavras de Cardedal: “Se o santo antes era o que estava longe e proibido, o que às vezes atraía e fascinava mas repelia e afastava no temo, no cristianismo o santo começara a ser proximidade à vida humana como fruto de uma liberdade que se outorga para ser partilhada. Deus, sem deixar de ser santo e sem diminuir a sua transcendência mas, pelo contrário, fazendo-as sentir cada vez mais, se dá a si mesmo constituindo um povo de santos, à semelhança de quem o elegeu”. Por isso os discípulos não ficam em Emaús. Não podem ficar. Regressam a Jerusalém para integrar este povo santo e que o é quando se faz próximo, tal como já vimos nas outras leituras.

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