Homilia

Paixão do Senhor

Jesus fez uma mesa e ontem fomos todos convidados a sentarmo-nos, para que nos pudesse lavar os pés e nos fizesse lavadores de pés. Homens e mulheres, discípulos, prontos a lavar os pés aos que vivem sem lugar. Quando Jesus Se levantou do seu lugar, deixou o lugar do poder vazio. Ele preferiu ocupar o lugar do serviço. Caminhou até ao lugar dos sem lugar. Longo caminho. A distância, entre o lugar do poder e os pés da humanidade que precisam de ser lavados, é imensa e feita com muitos encontros.
Todos estavam ali à mesa, mas nem todos estavam preparados para ir até ao fim. Ainda não sabiam usar a toalha que enxuga e limpa a vida. Por isso o caminho de Jesus fez-se de solidão. A solidão dos homens. Sim, cada pessoa é um espaço de solidão. Tentamos combater esta solidão com as estratégias do poder e da sedução, que fazem ainda mais dolorosa a nossa condição. Jesus entra na Sua solidão, abandonado pelos amigos e sentindo a distância do Pai. Faz o caminho sozinho, com a cruz às costas e na cruz encontra-Se, sozinho, sem mais nada, sem ninguém, apenas Ele próprio diante de Si. Este é o caminho calcorreado por Jesus até à cruz. Até ao lugar fora da cidade, fora da geografia da humanidade, o lugar do sem lugar. A solidão de Jesus não ficou fechada em Si, foi um caminho até aos pés da humanidade.
A vida é um acontecimento maravilhoso que se manifesta em toda a sua beleza quando se faz fecunda. Cada semente, cada fruto, cada gesto de bondade é uma utopia, um lugar onde a vida mostra que não tem lugar, porque o que lhe é mais próprio é o dinamismo criativo. Vida gera mais vida. É saída. A grande desgraça passa por tentar reter a vida, como semente que, lançada à terra, não morre, como árvore por onde se passa e donde não se colhe fruto, como homem que guarda em si os dons que lhe foram concedidos.
A grande desgraça é viver sem graça, sem amor suficiente para fazer da vida uma utopia, um sem lugar. Quem não arrisca sair, não vive, morre dentro de si, sem nada lançar à terra. Mesmo aquilo que cai no caminho ou entre as pedras e não dá o fruto esperado, não morreu dentro de nós. Mais do que desgraça, verdadeira tragédia cantada pelos poetas, é uma vida que morre dentro da vida, por medo de morrer.
A mesa é o espaço por excelência para narrar este acontecimento que é a vida. Só a vida é verdadeiro acontecimento. Tudo o resto acontece dentro dela e, se não acontecer, é porque tudo está morto. Já não há vida. Viver significa acontecer, dar-se, sair, fazendo-se responsável por aqueles onde não há lugar para qualquer acontecimento. A pobreza impede a aproximação à mesa para conviver. A que mesa se sentam os pobres? Os pobres não têm mesa, não têm lugar e, sempre que um pobre encontra uma mesa para se sentar, é uma semente a desabrochar, uma vida a acontecer, um acontecimento vital. Habitualmente, os pobres não têm lugar para se sentarem à mesa porque não têm onde habitar, comem nas bermas da estrada ou na soleira de qualquer casa abandonada. Os pobres não têm lugar à mesa. Não têm nome, nem cargo ou designação, só serviço. Há quem esteja à espera de qualquer oportunidade, até duma tragédia, como a que está a acontecer, para obter mais um cargo ou uma distinção. Um lugar. Há quem caminhe todos os dias para procurar verdadeiramente dar uma mesa. Esses deixam o seu lugar e fazem o longo caminho até à cruz. Até à solidão.
O Caminho de Jesus até à cruz é feito de encontros e em todos eles há um desencontro. Os discípulos perdem-se no caminho, negando e fugindo. As autoridades procuram apenas um motivo para O lançar fora da cidade. Na cidade só há lugar para um confinamento, o egoísta de cada um querer o seu lugar, de se querer salvar só a si próprio. Os soldados descarregaram, em Jesus, toda a sua fúria e toda a frustração de uma vida que se vive em contradição, porque vivida na violência. Pilatos, com o lavar das mãos, pretendeu não ter lugar naquele acontecimento. Pilatos não sabe o que está a acontecer, não deixou que a justiça acontecesse por isso, ele, que fez o julgamento, morreu julgado. As mulheres, com os seus silêncios, os seus gestos e os seus olhares deram um lugar a Jesus no seu coração e foram geradas neste acontecimento como as primeiras testemunhas da hora de Deus. Deus orou a Deus por nós e esta oração foi a Sua hora na cruz. Oração simples, Deus em Jesus orou para que todos tivessem um lugar na vida.
Agora não podemos ver Deus na cruz de Jesus e não ver, no irmão sem lugar, Jesus crucificado. Não podemos beijar a cruz de Jesus se não beijarmos a solidão do idoso ou do jovem sem futuro. Esta é a hora de fazer caminho com os crucificados, com a solidão de tantos. Há quem se sinta só, por estar confinado em casa, há muitos carregados com uma solidão atroz por não saberem que futuro terão depois de tudo isto passar. Esta é a hora de orar, orar a Deus para que nunca deixemos Jesus sozinho no Seu caminho, para que nunca fique sozinho na cruz. Junto à cruz estavam Maria e o discípulo amado. Somos nós, a Igreja e cada batizado, que professamos a Sua fé, fazendo da Sua solidão um caminho para encontrar os crucificados deste mundo. Mais um paradoxo: da cruz sai quem se crucifica, para tirar da cruz quem vive sem lugar.
Hoje, ao aproximarmo-nos da cruz, façamos caminho dentro de nós, para, depois do confinamento passar, caminharmos com todos os que vão gritar por não terem futuro, por já não saberem do seu lugar e por a sua mesa estar vazia. Onde está Deus em tudo isto? Onde está na morte de Jesus? E tu, onde estás no sofrimento de Deus? Ele continua a caminhar entre as multidões e espera que tu sejas, agora, as mãos ou os olhos das mulheres que O acompanharam e acolheram na seu coração. Podes ser agora a Verónica, que Lhe limpa o rosto, ou aquela outra que Lhe leva um copo de água.
Escutemos o grito dos que padecem de solidão, dos que sofrem, dos empobrecidos, dos que têm os seus sonhos frustrados, dos que se sujeitam a trabalhar sem condições para salvar a família ou o irmão que chega ao hospital contaminado. Sejamos Maria ou João, José de Arimateia ou Nicodemos, ajoelhemos aos pés da cruz do irmão. Aprendamos a usar a toalha do batismo e sejamos homens e mulheres que vencem a solidão na graça de Deus, que nos ensina a lavar os pés do irmão.

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