Nesta mesa há um lugar para todos 

Eucaristia

 

Bênção da Cidade

Homilia

Um lugar à mesa

Na lógica do mundo, todo o lugar criado pela humanidade é sempre exclusivo, por isso é o contrário da utopia, do sem lugar. Para que não seja assim precisamos de uma mesa que tenha lugar para todos e essa seria uma mesa infindável com um alimento interminável. As mesas têm muito de utópico, de não lugar como também são, desde sempre, espaço de descriminação. Quem deixo sentar-se comigo à mesa? Todos têm lugar à mesa da refeição que se serve em minha casa? Quanto mais simples for a mesa, quanto mais básico o alimento, mais lugares há, mais esta mesa se aproxima da utopia.

A mesa é um abrigo para a fome que a humanidade transporta consigo. Há uma imensa fome de pão, mas maior é a fome de Deus. Precisamos de mesas onde a fome de Deus cresça exponencialmente, para que a fome de pão diminua.

Jesus é um provocador, chama por nós do futuro. Jesus não fala do passado, em nenhum dos Seus encontros com as pessoas falou dos seus passados. Chamou sempre para a novidade da mesa que estava a preparar para todos, para o lugar de cada um à Sua mesa. Jesus continua a provocar-nos, a chamar-nos e esse chamamento vem do futuro. Não interessa a que mesa te sentaste até agora, mas a que mesa estás disponível para te sentar, escutando a Sua voz que chama sempre para mais.

A tradição judaica cuida de manter viva a utopia, pela esperança, por isso na ceia pascal há sempre um lugar a mais à mesa. Há um lugar vazio para quem vier, e não tiver onde celebrar a ceia pascal, se possa sentar à mesa e viver a Páscoa da libertação. Um lugar a mais na mesa. Uma mesa que não fecha o seu ciclo na abundância dos pratos requintados ou dos vinhos saborosos. Uma mesa que não se fecha no seu grupo de amigos ou nos da sua classe. Uma mesa sem viseira, sem qualquer impedimento e com um lugar a mais só pode ser preparada por Deus, diz-nos o profeta Isaías. Uma outra perspectiva para se tomarem as carnes suculentas e os vinhos deliciosos. Esta é a promessa de Isaías e de toda a escritura a ser cumprida por Deus, a libertação do povo do Egito da escravatura e de todas as escravaturas dos muitos Egitos do mundo, onde a condição humana se vê impedida de realizar, com toda a dignidade, a sua vocação à felicidade. Uma provocação, uma desinstalação. As mesas a que normalmente nos sentamos não servem. Isso mesmo, as mesas que servem são aquelas que têm como lugar os que servem os que vivem sem lugar nas nossas mesas. Precisamos de outras toalhas e de saber servir um outro alimento, para que nos alimente de pão e no pão nos alimentemos a todos de Deus.

Todos, atualmente, anseiam pela libertação desta pandemia para regressar ao convívio social, aos momentos de partilha e de lazer. Todos estão ansiosos por se voltarem a sentar à mesa com os seus familiares e amigos. Todavia, o desafio de libertação pode ser maior, se todos ansiarem por uma mesa comum e que não deixe ninguém de fora. Basta que nos perguntemos pela mesa a que os pobres se estão a sentar e onde se virão a sentar, depois de tudo isto.

Há uma mesa que recebemos como herança milenar e que pode ganhar nova vida entre todos os que se deixam transformar pelo paradoxo da utopia, (à letra sem lugar) se transformar num lugar. Uma Páscoa da passagem de Deus, de Deus que passa e liberta. Liberta deste confinamento no egoísmo em que vivemos há tantas décadas e que vem crescendo de ano para ano. Este confinamento egoísta fez a mesa cada dia mais pequena, com menos lugares, até ser exígua, cheia de solidão. Passou a ter um só lugar. O lugar de cada um.

Esta é a hora de fazer da mesa um espaço de encontro e de vitória sobre o paradoxo, para dar um lugar aos sem lugar. Ao fazer da nossa mesa um lugar para todos, vencemos o que a razão não alcança, mas a fé no amor de Deus nos possibilita. Jesus assim fez, tomando o lugar de servo à mesa e lavando os pés aos Seus discípulos. A todos. A Pedro que o negou e a Judas que o traiu. A todos. Basta que se deixem lavar pela misericórdia de Deus, pelo amor que ao fazer-Se pobre, faz-Se para todos, acolhendo a cada um. Só há uma forma de vencer o paradoxo do lugar, passar a ser “sem lugar” e os “sem lugar” passarem a ter um lugar à nossa mesa. Pelo serviço humilde de lavar os pés. Dito de outra forma, viver a vocação de estar ao serviço da humanidade ferida e manchada. Não interessa de onde se vem, apenas que se traga no coração o desejo ardente de voltar a viver e, se não o trouxerem, que a nossa toalha seja suficiente para limpar toda a sujidade que impede o coração de viver ardentemente. Não há grandes diretrizes para quem deseja viver assim, não há onde reclinar a cabeça, apenas há pés para serem lavados, corações para serem aconchegados e lágrimas para serem transformadas em sementes dum mundo novo. Não podemos ser paternalistas, porque lavar os pés e sarar as feridas é colocar outro de pé, para que no seu coração encontre o desejo de viver com verdade.

Este é o dia, esta é a hora do sacerdócio, de todos os que pelo batismo participam do sacerdócio de Cristo e de todos os que no seu batismo escutaram o futuro de Deus na consagração aos irmãos, à imagem de Cristo Pastor e Sacerdote. Este é o dia de todos os que consagram a sua vida ao serviço dos irmãos e procuram, de coração sincero, realizar a utopia de uma mesa comum para todos. Não é fácil, muitas são as opções e tantas outras as ideologias. Nós identificamo-nos com Aquele que Se ajoelha aos pés da humanidade para lhe lavar os pés, para a lavar de toda a imundice. No discipulado de Jesus, experimenta-se que só a humildade é faz de multiplicar os lugares à mesa. Este também é o dia para que cada batizado e, de forma particular, os sacerdotes ordenados, reconheçam que nem sempre tiveram a capacidade de se ajoelhar mais uma vez, mais um pouco e lavar os pés a quem se aproximou, mesmo que não tendo em si vontade alguma de proximidade.

Há um gesto provocador a concretizar, um gesto que não está preso ao passado, mas que também não precisa de ser utópico, irreal, porque para o concretizar basta encontrar um lugar para mais um. Assim fez Jesus, levantou-se da mesa, deixou o lugar da presidência e, tomando uma toalha, ocupou o lugar dos últimos. Jesus revolucionou o mundo com o Seu gesto. Ele inverteu a pirâmide das hierarquias. O gesto de Jesus é sempre futuro para toda a humanidade, para cada um de nós e, especialmente, para os batizados. Vem de Lá, vem de Deus e atinge o coração, não deixando ninguém indiferente. Jesus não convence os discípulos nem os força a aceitar este gesto. Deixa-o como exemplo.

O Reino de Deus não se impõe pela força, mas pelo exemplo, pelo testemunho e neste tempo de confinamento muitos têm sido os exemplos que nos falam do ardor que vai nos corações dos que só desejam pôr a mesa, uma mesa para todos.

 

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