Outras Leituras- Domingo de Ramos

Todas as segundas-feiras há um encontro, on line, de leitura orante do evangelho e outras leituras com música cinema ou literatura. Fica aqui mais uma partilha, da participação do Padre Artur,  para quem desejar aprofundar o Evangelho do Domingo anterior.

Todos nós vivemos noites difíceis, as noites de insónia. Todos sabemos o quanto custa passar uma noite mal dormida. Afirma Bernando Gianni: “Que grande escola de desespero e de esperança é uma noite de insónia! Que grande escola de desconfiança e de fé é uma noite de insónia! E, no entanto, atualmente, também é possível evitá-la, pois basta ir à farmácia, comprar umas gotas e “drogar-se” (certamente, com drogas necessárias, ligeiras, admitidas, lícitas). Cada vez mais temos medo de habitar a noite e o seu risco de vazio e de deserto.” Este espaço de insónia são os passos de Jesus da agonia ao Calvário. São os espaços de solidão. É verdade, numa noite mal dormida, sentimo-nos dolorosamente sós. Por isso é que é tão difícil passar as noites da humanidade. Continua Gianni: “Escutar o que falta”, ouvir “o acordo entre tudo o que emudece”: eis a síntese do que, confusamente, procurei dizer.” E continua: “Escutar o que falta”, significa conseguir dar a palavra ao silêncio, como tantas vezes as Escrituras nos convidam a fazer.” Nem sempre é fácil escutar o que o silêncio tem para nos dizer, porque nos pode dizer o que está por fazer e o que não foi bem feito. Aqui a solidão pode ser ainda maior. Maior é o medo.

Os três grupos de pessoas que no evangelho mais medo revelam são os “sumos sacerdotes e os anciãos (Mt 21,26.46); “sumos sacerdotes e escribas” (Mc 11,18; Lc 22,2); “sumos sacerdote, escribas e anciãos (Mc 11,32; 12,12). Também Herodes e o próprio Pilatos, parece que demonstram alguns medos, apesar deste último ser um sanguinário. Eles têm medo da reação do povo e não de Jesus. Este era visto como um homem débil, indefeso, inofensivo. O medo das autoridades era em relação ao povo, mas ao povo composto pelos pobres. Os pobres são os que mais assustam os poderosos no tempo de Jesus. Será só no tempo de Jesus? Os pobres estimavam imenso Jesus e sentiam-se identificados com Ele, com os Seus ensinamentos, por isso as autoridades temiam fazer alguma coisa contra Ele. Seria atentar contra o povo. Nesta senda, José M. Castillo afirma: “O medo é o verdadeiro motor da decisão que toma o Sinédrio. Refiro-me ao relato do Evangelho de João em que se diz que, depois que Jesus devolveu a vida a Lázaro, “os pontífices e os fariseus” (Jo 11,47) diziam: “Se o deixamos continuar assim, todos acreditarão n’Ele e virão acabar com o lugar santo e com a  nação” (Jo 11,48). Ao princípio parece uma motivação política. O movimento popular que suscitara a atividade de Jesus, se o deixassem continuar, seria um bom pretexto para uma intervenção dos romanos e a perda dos últimos restos de autonomia nacional… É o medo das autoridades religiosas de Israel que temem certamente os romanos. Mas, mais do que dos romanos, têm medo é do povo.” Têm medo de perder o poder. Os pobres desmascaram o poder, que se mascara com a defesa dos interesses da pátria, da religião e até do próprio Deus. A máscara apenas serve para esconder o verdadeiro interesse, que é o uso do poder sobre os outros, para se servir dos outros e não para estar ao seu serviço. Não sei se muitos não se estarão a servir-se desta pandemia. Infelizmente, também serve para esconder muitos medos ou para incutir outros. Claro que temos que nos proteger e aos outros, mas há muito para fazer e haverá muito para refazer quando tudo terminar.

A máscara que o poder se vê obrigado a retirar no grito de Jesus na cruz: “Meu Deus, Meus Deus, porque Me abandonaste”, apenas esconde a distorção que o poder faz do próprio Deus. O grito de Jesus dirige-se ao Deus do povo, ao Deus connosco, o Deus dos profetas. Enquanto o Deus dos dirigentes era uma distorção do Deus da misericórdia. Segundo von Rad: “precisamente o homem piedoso é o que corre mais perigo de configurar a Deus à sua imagem ou segundo outra imagem.” No fundo o que podemos dizer, é que o que está em causa é a imagem de Deus. De quem as autoridades têm medo, é de Deus, porque competem com Deus pelo Seu lugar. Esta é uma das acusações de Jesus, quando afirmou que estas autoridades ocuparam o Cátedra de Moisés e dos profetas ou quando disse que o verdadeiro conhecimento de Deus foi revelado aos “simples”, os “nepioi”, os que não são tidos nem achados, aqueles a quem ninguém escuta.

O grito de Jesus acusa todo o poder de ter esquecido os últimos, por ser a fonte de muito sofrimento e por tanto extermínio. Executado sem piedade na cruz, é a máxima revelação de Deus, identificado para sempre com todas as vítimas inocentes da história. Do silêncio da cruz, Ele é o juiz mais firme e manso do aburguesamento da nossa fé, da nossa acomodação ao bem-estar e da nossa indiferença diante dos que sofrem. Diz-nos Pagola: “Não podemos adorar o Crucificado e viver de costas diante do sofrimento de tantos seres humanos destruídos pela fome, pela guerra ou miséria.” E continua a interpelar-nos: “Que sentido tem levar uma cruz sobre o nosso peito se não sabemos carregar com a mais pequena cruz das pessoas que sofrem perto de nós? Que significam os nossos beijos ao Crucifixo se não despertam em nós o carinho, o acolhimento e a aproximação solidária a quem vive crucificado?”. Ninguém procure uma cruz, mas todos devem procurar aceitar viver crucificados com Cristo, viver junto dos que sofrem e sofrer com Cristo tudo que a vida nos trouxer.

Por isso o grande passo a dar pela Igreja segundo Armando Matteo passa por: “transformar as comunidades eclesiais – de modo particular as paróquias… – em “lugares” onde se aprenda a acreditar e onde se aprenda a rezar. Lugares onde se possa decidir crer. Lugares onde se gere a fé. Lugares à medida daqueles laboratórios da fé, desejados por João Paulo II. Lugares em que os próprios jovens possam confrontar a sua ignorância em relação ao Jesus do Evangelho e ao Evangelho de Jesus, e as suas pretensões infantis em relação à existência e à Igreja; lugares de repouso, de liberdade, de passagens e de paisagens a contemplar, a admirar, a interrogar e a pôr à prova; lugares onde trabalhar o mal-estar cultural que atormenta as pessoas; lugares facilmente transitáveis, subtraídos à mania clerical da diaconia a todo o custo, em favor de um simples seguimento.

Simone Weil teve o seu primeiro contato com Cristo em Portugal, na Póvoa do Varzim. Diz-nos como aconteceu este encontro no seu diário: “entrei nesta pequena aldeia portuguesa num estado físico miserável. Também de noite, sozinha, sob a lua cheia, no dia da festa do padroeiro. As mulheres dos pescadores giravam em torno dos barcos em procissão, levando círios e entoando cânticos muito antigos e de uma tristeza pungente… de repente tive a certeza de que o cristianismo é, por excelência, a religião dos escravos, que os escravos não podem não aderir a ela, e eu entre eles.” Para esta mística e filósofa, a compaixão para com os escravos é o caminho para chegar à cruz de Jesus, é a única forma de ser verdadeiramente humano, o único ato que pode ser considerado imitação de Deus.

Ramos

Creio no silêncio recolhido no pó dos dias

(Crês que Jesus foi sepultado?)

Mergulho no silêncio e fico à espera que a luz invada o meu quarto. Não sei que janela abra, mas de fora continuam-se a ouvir os gritos de destruição. Não deixo de escutar o clamor de tantos transformados em pó todos os dias. Não sei que máquina os homens inventaram para que os dias não fiquem em silêncio e, entre as rodas e os êmbolos, se escute o gemer da jarra partida, por já não ter água para as flores. Colocam flores em jarras e deixam-nas por cima dos túmulos, mas não as oferecem aos que gemem a passagem do amor. Jesus foi colocado no túmulo e alguns choraram. Recolheram-se no silêncio e juntaram o pó das recordações e este foi ganhando forma.

Creio na forma do pó, mas também nas pedras de tropeço, porque permitem que baralhe tudo de novo, para tudo ganhar nova forma. Melhor. Preciso do silêncio, para juntar todas as pedras onde caio. É ali onde deposito as flores, para que o amor passe e levante os dias recolhidos no pó.

Oração

Bendito seja aquele dia

Que na Cruz nos redimiste

E que ao pecador quiseste

Perdoar na tua agonia.

Cumpriu-se a profecia

Da tua morte e paixão.

Bendito seja o perdão

Que concedes ao mundo inteiro

Depois da lança certeira

Que perfurou o teu coração.

(José María Zandueta)

O lugar dos dias

Domingo

“Ele, que é de condição divina, não considerou como uma usurpação ser igual a Deus; no entanto, esvaziou-se a si mesmo, tomando a condição de servo.” (Flp 2,6-7)

Segunda-feira

Jesus não teve medo de ser depositado entre o pó dos trabalhos humanos. O pó é chamado novamente à vida.

Terça-feira

Semeados no pó, os dias de Jesus foram como sementes chamadas a germinar para dar fruto.

Quarta-feira

O pó dos dias é levado pelo vento para um passado longínquo. Em Jesus o futuro faz-se presente e o passado toca-se em cada gesto terno.

Quinta-feira

Jejuo do que já fui, para hoje pode ser o melhor do meu amanhã.

Sexta-feira

Todos os dias caio um pouco. Deixo por aqui e por ali um pouco do pó que sou. E todo será recolhido no amor que me salva de ficar esquecido.

Sábado

Espero a ressurreição. Acredito que nada está perdido e todas as nossas lágrimas serão recolhidas, porque até os nossos descuidos serão aproveitados para fazer alguém amar mais.

Outras leituras

Filme

Três Cartazes à Beira da Estrada – Martin McDonagh

Música

Sérgio Godinho – O Primeiro Dia

Jay-Jay Johanson – Far away

Pedro Abrunhosa – Eu não sei quem te perdeu

António Vivaldi: «Filiae maestae Jerusalem» RV 638

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