HOMILIA

Ao sabor da Palavra- Domingo de Ramos

Meu Deus, Meu Deus porque Me abandonaste…

Poucas palavras são precisas para quem está habituado ao deserto. Poucas palavras usou Jesus, para que nenhuma escapasse e ficasse depositada no vazio da irrelevância. Com poucas palavras morreu Jesus. Para as autoridades bastou declará-lo como réu de morte ou herege, para os discípulos foi suficiente dizer que não o conheciam e para Judas nenhuma palavra, apenas um beijo e tudo ficou dito. Jesus não usou muitas palavras e todas foram ditas como quem lança sementes preciosas à terra, bem espaçadas para desabrocharem frondosas no coração dos homens.

Jesus está habituado ao deserto das ausências onde falta tudo para, no deserto, procurar a presença d’Aquele que O enviou. Mas teve que ir à cidade e, na cidade, encontrou um deserto bem maior. Uma cidade cheia de cores e aromas, ruas e ruelas, de pessoas que passam e de outras que comercializam, de estruturas humanas e de construções idealizadas. A cidade é o espaço da presença humana no seu melhor e no que tudo isso implica de pior. As cidades modernas, formatadas pelos programas de eficiência e de utilidade, estruturadas pelas leis de mercado, de produção e consumo, que se estendem para lá das suas fronteiras naturais, quer territorialmente quer pelas redes sociais, fecham o horizonte. Aparentemente, cheias de palavras, falta a Palavra antes de todas as palavras, Deus.

Jesus foi até Jerusalém e as poucas palavras que usou foram suficientes para incomodar as estruturas políticas e religiosas. A cidade constrói-se sobrepondo-se e apartando-se, fazendo-se cada vez mais exíguo o espaço vivencial de cada um. Jesus trazia consigo a largueza de horizonte do deserto e no deserto basta uma só palavra, a do silêncio, para que, escutada, germine uma morada. O deserto é exigente, porque exige o tempo de aprender a escutar a palavra silenciosa que abre em nós a hospitalidade. Jesus vem para que a cidade se faça mais hospitaleira e se disponha a acolher a todos, a acolher a Palavra. Há que preparar a hospitalidade, não precisa de muito conforto, mas de corações disponíveis para o desconforto de ouvir. São as instruções para os discípulos prepararem a Páscoa, para a passagem de Deus. E Deus anseia passar pela cidade e transformá-la numa hospedaria, aquela onde o samaritano deixou duas moedas e conta aberta para tudo o que fosse preciso. Jesus pede à cidade o silêncio, para que verdadeiramente escute a Deus e deixe de se escutar. Quem escuta é transformado em chão, para que a semente de palavra rasgue o chão e este dê frutos da presença divina.

Judas não estava disponível para ser chão. Ele não sabia que sendo chão, muitos outros ganhariam um lugar para edificar as suas vidas. Judas acompanhou as palavras de Jesus e elas passearam com ele algum tempo, mas ele não foi capaz de edificar a sua vida neste chão, nem abrir a sua morada à palavra para que se fizesse pão. Judas não compreendeu o abrir do chão, nem do tempo que é preciso para que este dê pão em todos os corações. Ele simpatizou com Jesus, porque alimentou as multidões e fez muitas moradas para os pobres e doentes, para os pecadores e para os possuídos no chão do Seu coração. Um coração que se faz hospedaria para todos. O tempo está próximo e Judas faz-se distante. O chão está pronto a germinar e Judas apressou-se a negociar uma outra possibilidade. Judas pensou que só negociando com a autoridade é que haveria solução. O poder nunca está pronto para negociar e a dureza do chão só se abre diante do amor incondicional. Habitamos mundos cheios de poder, que prometem tudo, fazem acordos e alianças mas, diante da mínima ameaça, atraiçoam. Fala-se  de globalização, mas cada um procura-se a si próprio.

Pedro promete o impossível. Ser um chão da dimensão da dor humana. Pedro será possível em Jesus pelo perdão. Pedro não sabe que a ferida também dá grão. Vivia cansado das redes vazias e em Jesus encontrou Quem enche as redes. Pedro ainda não tinha escutado o suficiente as poucas palavras que esvaziam a vida para ganharem raiz e brotarem em pão de vida eterna. Pedro prometeu com muitas palavras. Pedro sempre teve muitas palavras, sempre se antecipou aos outros para falar. Pedro tinha dentro de si uma cidade de revoltas e frustrações.

Basta um sim ou um não. Basta hospitalidade. E nem uma hora Pedro permaneceu à porta para acolher as poucas palavras do Filho ao Pai. Pedro não conhecia o silêncio que rasga a terra, rasga a carne para que escutem e deixem brotar o amor que nos habita. O silêncio do Pai. Pedro adormece à porta e não entra neste silêncio onde as poucas palavras passam de semente a pão, onde se abre a ferida. Assim que esta começou a abrir, Pedro fugiu.

Vivemos numa sociedade adormecida pela força do capital, insensível, que fala muito, mas escuta pouco. Sempre que precisa de escutar adormece na indiferença. No cansaço de si mesma. Talvez muitos ainda não tenham despertado para esta estranha loucura: vivemos num mundo cansado, por isso sem tempo, mas sempre a prometer o impossível. Ninguém tem tempo para nada, nem para si próprio. Sempre a prometer amizade nas redes sociais ou um amor eterno que finda em poucos dias.  

As palavras de Jesus foram enclausuradas nas rochas do sepulcro. A cidade escolhe o silêncio de não ouvir a Palavra que chama à escuta mais profunda. A cidade elege sempre silenciar quem fala ao íntimo, quem questiona os processos e os métodos. A cidade gosta de ruído, das notícias e da propaganda do “eu” de cada um. Não está disponível para escutar quem apela para que se silencie e passe a ouvir todos aqueles que não têm voz, porque é nesses desertos existenciais que Deus fala.

A cidade falou e Jesus foi silenciado, encerrado num sepulcro fora da cidade. Mas as poucas palavras gritadas da cruz fenderam os rochosos corações e todas as construções. Nada mais seria igual depois do grito de Jesus. A carne rasgou-se e a sementeira fez-se. Ali naquele chão rochoso, as poucas palavras brotaram para todos levarem um pouco e fazerem pão. Agora há alimento para que a vida possa ser vivida.

A cidade passou a ser o espaço do encontro com Deus, porque o deserto foi redesenhado com outra configuração. Os rostos dos sem voz acolheram as poucas palavras de Jesus e a Sua morte encheu-se de vida, porque aqueles foram resgatados, pelo amor, para a vida que o Amor oferece.

Pedro passou a falar, já não numa verborreia. Pedro fala com a palavra que o silenciou confidenciou, quando Lhe perguntou se o amava. Já não há chão que não dê fruto, porque o amor vence a morte, a dureza da rocha, das construções.

Jesus silenciado continua a falar aos corações da cidade para que preparem tudo para a Sua Páscoa, para a passagem de Deus. Nesta Páscoa, Deus vai passar, está a passar em tantos corações que se disponibilizam para abrir a solidão e fazer mesa com uma refeição onde se toma o alimento da fraternidade.

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