Todas as segundas-feiras há um encontro, on line, de leitura orante do evangelho e outras leituras com música cinema ou literatura. Fica aqui mais uma partilha, da participação do Padre Artur,  para quem desejar aprofundar o Evangelho do Domingo anterior.

Outras Leituras

Como fazer com que se ouça o som inaudito da alteridade com as palavras da identificação? Diz-nos Bruto Forte que esta é a questão que Emmanuel Levinas tenta desenvolver na abordagem que faz a Heidegger. A questão é o outro, verdadeiramente outro, que implica uma ética da responsabilidade, que permite superar o imperialismo da subjetividade como da ditadura do “eu” ou da anulação total deste pela massificação da igualdade, para o abrir a uma experiência de infinito que se oferece no rosto do outro.

O rosto do outro é sempre uma porta que dá acesso ao mistério. Quando o outro nos falta, a nossa vida fica tão reduzida, que já não é vida. Perdemos a capacidade de saber o nosso nome e já não tem sentido pronunciá-lo. O nosso nome é-nos dado pelo outro. É ele que nos chama e tanto chama aquele que vive ao nosso lado como aquele que vive dentro de nós, que nos fala na consciência. A ética é o lugar da responsabilidade pelo outros de um sujeito que suporta tudo, que está sujeito a tudo, que sofre por todos e que é responsável por tudo.

Jesus escuta sempre. Claro que no Evangelho da morte de Lázaro, parece que não, que não ouve o grito do amigo que sofre nem acolhe a notícia das irmãs do enfermo. Jesus escuta sempre.

Continua Bruno Forte: só graças à responsabilidade para com o outro, é que o sujeito sai verdadeiramente da prisão de si mesmo, rompe com a totalidade ilusória do mundo e aceita chegar a ser refém do outro. Talvez assim se compreenda melhor o caminho de Jesus. A Sua opção é pela vida, por isso, faz-se responsável por todos. Os caminhos da vida são contrários aos da morte. Estes últimos implicam sempre a vantagem pessoal, o ganho ou a vitória sobre algo ou alguém. Mais uma vez, Jesus diz que tudo o que está acontecer é para que se manifeste a glória de Deus.

O caminho da vida, que são os caminhos do amor, passa sempre pela derrota, ao fazer-se responsável pelo outro. Para que o outro viva, seja, é preciso que o eu absoluto se renda e abra espaço ao outro. É um verdadeiro êxodo, saída, e toda a saída é sempre mortal. Há sempre muito a deixar para trás, para acolher a novidade que o outro traz consigo. Há uma admirável contração do Infinito, o “mais” que habita no “menos”, o Infinito no Finito. Afirma Levinas. Ao Filho não bastou fazer-Se  Homem, encarnar. Despojou-Se mais e assumiu a condição de servo e, fazendo-Se servo, morreu na cruz, completamente despojado e humilhado.  

Voltamos à  velha questão destas Outras leituras deste ano.  O homem só existe enquanto ser interpelado… na intimidade da sua liberdade, o eu está vinculado a si, obrigado a ser ele próprio… uma identidade chamada. Podemos dizer que a consciência é a interiorização de um chamamento, não como lei imposta de fora… é a consciência que me faz descobrir a realidade como algo dado e concedido; seguindo a sua voz, faço e realizo a substância da minha índole peculiar, cumpro com a liberdade que já sou, mas que desenvolvo, diz Elmar Salmann. Esta palavra que me chama pode encarnar-se no rosto desse outro que me questiona e me tira a segurança de mim mesmo. Tal como acontece com a palavra Bíblica, que me provoca, invoca e evoca; põe-me em causa e desperta-me, acordando-me do sonho; retira-me dos meus ídolos e da necessidade de encontrar uma auto-confirmação no trabalho, na religião ou na ideologia. O rosto despido, frágil e sem a máscara é a grande interpelação que me desperta, para que faça da minha existência um existir diante de uma instância que me chama e se impõe e me dá a verdadeira consciência sobre mim próprio. Acusa-me da minha indiferença acusando-me da minha autorreferencialidade. Jesus chora a falta do rosto de Lázaro e todos nós, no rosto de Jesus, choramos o mal que fazemos, a ausência a todos aqueles que vivem sem nome neste mundo e não passam de um número, ou ficam enquadrados numa relação de descriminados.

Voltamos à velha afirmação destas leituras, nós somos pobres ao ponto de não nos valermos a nós próprios. Há uma carência de vida antes da morte. Esta carência é de todos, mesmo que muitos disfarcem numa vida aditivada por imensos “açucares” para não deixar que se sinta a vida tal como ela é.

Toda a realidade, tal como ela é, não é fácil e, para muitos, faz-se aterradora. Não procuram uma vida depois da morte, mas também não procuram viver tudo aquilo que a vida implica. Desculpam‑se no mundo de diversões. Soltam uma lágrima, mas em nada tocam a realidade do outro. Isso implicaria fazer-se pobre, como Jesus, na última ceia, que Se ajoelha diante dos discípulos para lhes lavar os pés.

Quando perguntaram a muitos dos judeus sobreviventes dos campos de concentração nazis quem tinham sido os que mais aguentaram os horrores que desumanizavam, destruíam a personalidade e a sanidade mental a par da saúde, quem foram as últimas pessoas a sofrer a crise de sentido: porque estavam vivas, quem eram ou qual era a sua tarefa, que grupo, que nacionalidade, que profissão, que raça foi capaz de se esquecer de si próprio, a fim de servir outros que estavam nas mesmas condições,  a resposta era quase sempre a mesma: “Os padres católicos”… um Padre não é um estatuto, mas um servo como Jesus servo, diz-nos o Cardeal Seãn O’Malley. Continua a partilhar connosco o Cardeal de Boston: o medo da Cruz é o que nos torna medíocres. O medo de sofrer… não é possível seguir Jesus a uma  distância de segurança. A nossa fragilidade é imensa e facilmente se revela na infidelidade. Continua o Cardeal:  temos que ultrapassar os nossos medos de sofrer, do fiasco, do vexame, da doença, da morte, da solidão. Só o amor pode desenraizar todos esses medos. Foi o amor de Jesus por Lázaro que venceu a morte deste. Amor esse que se revelou nas lágrimas, na grande comoção de Jesus quando vê Maria e os Judeus a chorar e quando chega ao sepulcro de Lázaro.

As lágrimas são no rosto humano o sinal de um despertar para o mais íntimo de nós mesmos. A pessoa que chora renuncia a julgar e a saber; rende as armas do conhecimento para deixar-se surpreender por uma passividade sem fundo. Afirma Catherine Chalier no seu tratado das lágrimas.

Nisto Deus é bem diferente de nós. Tal como Pedro e todos os outros discípulos, fazemo-nos fortes e depois, como prometemos coisas superiores a nós mesmos, somos infiéis. A diferença entre Deus e nós, é que Deus não tem medo e, em Jesus, Deus faz-Se o último para tocar a realidade toda, a até essa que parece tão marginal, mas é a mais presente de todas, a morte. Esta diferença entre Deus e nós abre uma diferença maior, o espaço do dom: um espaço de bondade que critica e suprime todo o ídolo. Todo o ser que pretenda identificar-se com Deus é idólatra. A diferença mostra-se na Kenósis, no despojamento. Jesus não Se identifica com o Deus dos fariseus ou dos escribas, mas com o Pai com quem vivia em intimidade. Por isso, Jesus faz-Se tão pobre que precisa de alguém que rode a pedra, de alguém para retirar as ligaduras e principalmente do Pai, porque tudo tem que ser vivido na liberdade. A liberdade só acontece quando há relação de intimidade, de confiança. Aqui entra em jogo a liberdade humana, a liberdade com letra grande, que é responder à interpelação, sem se fazer autárquico, porque se confia e porque se confia entrega-se. Diz‑nos Salmann: o homem está entre o ágape (o amor com que Deus nos ama) de Deus e o seu desejo fundamental de lhe responder. Este amor filial ou antecipação da graça, esta opção fundante por querer estar à altura dos seus dotes são a premissa e a promessa, a substância e a orientação fundamental da liberdade humana. Em Jesus o querer e o fazer coincidem e esta coincidência acontece na vivência da vontade do Pai, fazendo com que tudo dependesse do Pai e como sem Ele (Jesus) nada fosse possível.

Em Jesus Cristo encontramos um Deus cuja única propriedade é a desapropiação… um Deus, portanto, desarmado, um Deus frágil, um Deus a quem qualquer um pode matar, um Deus a quem a morte pode  tirar a vida, mas nunca o amor. A Deus ninguém conseguiu tirar o amor pelo Seu Filho, por isso ressuscita-O. A Jesus ninguém consegue roubar o amor pelo Seu amigo, por isso trá-lo à vida.Na primeira Eucaristia, o Senhor lava aos pés aos seus discípulos, para nos dar o exemplo, para nos ensinar a sermos servos. Dá-nos um novo mandamento, amarmo-nos uns aos outros como Ele nos amou. O Seu amor total e sacrificial tem de se tornar na medida do amor, da união e da comunhão que nos congrega, diz-nos o Cardeal O’Malley. Talvez seja difícil compreender isto, mas o amor de Jesus leva-O a chorar, não como Pedro, mas como todos nós também estamos chamados a chorar diante do mal que acontece aos nossos amigos. Mostrar a verdadeira amizade, que nos faz revirar o mundo à procura de escutar ainda mais profundamente os nossos amigos, para que o nosso amor se mostre com toda a verdade e os ajude a rodar as pedras que não permitem que vivam antes de morrer.

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