Há um Deus que nos procura e procura sempre. Deus tem desejo do nosso desejar por Ele. Mesmo quando não O vemos, Ele está para nos despertar para a vida, para nos curar de toda a cegueira que nos impede de ver a Sua presença. Esta não é como todas as outras, é sempre velada, porque ver a Deus implica o “não lugar” do Espírito e enquanto estamos na carne, em nós há lugar. Por isso o deserto é lugar de Deus, esse “não lugar”, foi o espaço escolhido por Deus para Se dar a conhecer. Na nossa vida há muitos momentos de deserto e normalmente experimentamos uma ausência. Só não sabemos que essa ausência não é de Deus, mas de todas as referências espaciais e temporais, é sobretudo uma desconstrução dos ídolos construídos por nós.
Deus procura inclinando-Se para o sem-lugar, para o que não tem valor, para o que não vê. E o não ver é sobretudo um viver voltado sobre si próprio, que não o deixa ver para além das suas necessidades, das suas dores. O não ver é estar fora da vida, da convivência com Deus e com os outros.
Carmine di Santi na sua reflexão sobre o Pai Nosso afirma: Deus revela-Se como “Pai”, porque estabelece este novo horizonte, esta possibilidade boa de romper com o determinismo. Este espaço onde é redefinido tanto o divino como o humano, num amor que se dirige ao dissemelhante, que na bíblia é o pobre, o imigrante, o órfão, a viúva, o enfermo. A especificidade deste novo amor não consiste em ser atraído pelo valor, pela plenitude ou realização do dinamismo auto-expansivo do eu, mas no inclinar-se para o dis-valor, redução e morte do eu e renascimento para uma liberdade amante. A pessoa humana passa de sujeito de necessidades para um agente de responsabilidade, de sujeito auto-expansivo a sujeito responsável. O agradável seduz, determina a identificação; o justo exige, cria a interpelação. O agradável conquista me, arranca-me a mim mesmo; o justo entrega-me a mim mesmo, para que me entregue a ele.
Esta aparição de Deus não é física nem milagrosa, como intervenção momentânea que tudo resolve e dispensa o humano de qualquer ação. Esta interpelação aparição acontece no âmbito da fé como nos diz Andrés Queiruga: Deus descobre-se presente e ativo ali onde se cai na conta do “drama do seu fazer-se solidário com o homem”, quando se compreende que só contando com Ele como Aquele que sustem e promove a realidade, pode o homem esperar que não se frustre totalmente o seu destino.
Deus quis precisar da pessoa humana e no relato do cego de nascença a pergunta dos discípulos foi a abertura humana para que se abrisse a intervenção de Deus. O nosso questionar é fundamental e principalmente quando se questiona a fundo. Isto implica uma espiritualidade centrada na vida. Perguntar é abrir-se de par em par à possibilidade de uma resposta; é o espaço suficiente e necessário para se chegar a outro lugar. É reconhecer que não estamos em condições de “sermos” resposta, de sermos realização, de renunciarmos a pensarmo-nos como detentores da realização do nosso coração, de considerarmo nos fonte originária de sentido. É o que propõe Paolo Scquizzato e continua: a pessoa que vive a vida espiritual é aquela que não aceita morrer de superficialidade. Ou como nos diz Pascal nos seus pensamentos: tirai-lhes (aos jovens) os divertimentos e vê-los-eis morrer de tédio; então, eles sentem o seu nada sem conhecê-lo; porque é uma verdadeira infelicidade encontramo-nos numa tristeza insuportável, logo que estamos reduzidos a meditar sobre nós mesmos sem que nada nos possa distrair disso. A diversão pode-se traduzir por delírio, que no latim (de = fora e lira = sulco e traduzido à letra daria fora do sulco, fora da profundidade. O caminho para esta profundidade é a contemplação, que traduzida toscamente dá: entrar no templo ou ver a partir do tempo e do templo.
No nosso tempo, lacerado por um pragmatismo tecnológico e dominante e, portanto, tentado a subordinar o esforço fecundo da memória e da esperança à percepção do imediato, fazer memória é exigente; é difícil recordar, isto é, trazer a um coração, atento e agradecido, os acontecimentos do passado, refere Bernardo Gianni e, nós acrescentamos, que isto serve para todos os acontecimentos, sejam do passado ou do presente. O cego testemunha esse acontecimento e está agradecido, mas é impedido de dar graças a Deus, porque para os fariseus a sua cura não entra nos cânones da Lei. Aqui também será bom que nos questionemos do porquê desta reação farisaica. As palavras de José Castillo podem ajudar-nos: Quando a religião se entende e se vive como “tapa-buracos” do que os humanos podem e têm que resolver, o que na realidade temos é uma religião centrada em si mesma, nas suas práticas e cerimónias, nas suas verdades e dogmas, nas suas normas e mandamentos. Pelo contrário, quando a religião se entende e se vive de outra forma, como religião centrada na felicidade das pessoas, na humanização das relações de uns para com os outros, no respeito e estima de todos para com todos, na defesa dos direitos humanos e na promoção da dignidade das pessoas, sobretudo dos mais indefesos e mais necessitados, então é claro que essa religião tem futuro e será sempre atual… Porque, por muito avançada que seja ou esteja uma sociedade ou um país, as pessoas experimentam a ineludível necessidade de encontrar um sentido para a vida.
O cego de nascença vai caminhando, vai entrando nesta aventura da contemplação da vida que está a ser gerada nele meditando, de pergunta em pergunta. São sete vezes que se pergunta como ficou a ver para, no fim, responder à última e definitiva questão, a que ele próprio coloca: Senhor, quem é Ele, para que eu acredite? Com um ato de fé. Ou dito de outra forma fazendo a opção profunda de ver a partir dos olhos de Jesus que permitem que se veja a outra pessoa como ela é amada. Os tratados de mística falam-nos neste caminho. Em Santa Teresa temos as sete moradas, já em Thomas Merton temos a Montanha dos sete patamares e em muitos outros autores surge o número sete como degraus para a plena humanização da pessoa. Estes degraus não nos fazem subir ao Tabor, mas descer do Tabor, do encontro com Jesus até à vida, à realidade, até à humanidade.
Só nos falta debruçarmo-nos sobre a violência da indiferença. O Papa Francisco na homilia do dia 08 de Janeiro de 2019 diz o seguinte: «Aos discípulos não interessavam as pessoas: interessava Jesus, porque o amavam — afirmou o Pontífice — e não eram malvados: eram indiferentes, não sabiam o que era o amor, não sabiam o que era a compaixão, o que era a indiferença». Eles «tiveram que pecar, trair o Mestre, abandonar o Mestre, para entender o fulcro da compaixão e da misericórdia». Mas «a resposta de Jesus é pungente: “Dai-lhes vós mesmos de comer”». O que significa: «Cuidai deles». Precisamente «esta é a luta entre a compaixão de Jesus e a indiferença, a indiferença que se repete sempre na história, sempre: tantas pessoas que são boas mas não entendem as necessidades alheias, não são capazes de compaixão». E no entanto «são pessoas boas» mas, acrescentou Francisco, «talvez o amor de Deus não tenha entrado no seu coração ou não o tenham deixado entrar». A propósito o Papa confidenciou: «Vem-me à mente uma fotografia que está na Esmolaria: uma foto espontânea tirada por um bom rapaz romano que depois a ofereceu à Esmolaria. Noite (noite de inverno, via-se pelo modo de vestir das pessoas, os casacos de pele) saíam de um restaurante pessoas bem agasalhadas com casacos de pele. Satisfeitas (tinham comido, estavam com amigos: isto é bom) e ali estava um desabrigado, no chão, e o fotógrafo foi capaz de capturar o momento em que as pessoas olham para o outro lado, para que os olhares não se cruzassem». Nesta imagem, insistiu Francisco, há «a cultura da indiferença» e «foi o que fizeram os apóstolos» sugerindo a Jesus: “Despede-os, para irem aos sítios e aldeias vizinhas a comprar algum alimento”, que se arranjem: é um problema deles»; dado que «nós temos cinco pães e dois peixes para nós». «O amor de Deus move-se sempre primeiro» repetiu o Pontífice. Pois «é amor de compaixão, de misericórdia: dá o primeiro passo, sempre». E «é verdade que o oposto do amor é o ódio, mas muitas pessoas não têm um ódio consciente». Ao contrário «o oposto mais frequente ao amor de Deus, à compaixão de Deus, é a indiferença», a que leva a dizer: «estou satisfeito, nada me falta. Tenho tudo, garanti esta vida, e inclusive a eterna, porque vou à missa todos os domingos, sou um bom cristão. Mas, saindo do restaurante, olho para o outro lado».

Deixe uma Resposta

Please log in using one of these methods to post your comment:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: