Homilia

Ao sabor da Palavra…
Tenho sede da Tua sede de mim. Deus tem sede de mim e é esta sede a única que me sacia, porque verdadeiramente tenho sede do amor. No amor de Deus bebo a água que me sacia, porque me desperta para amar assim. Já tentei saciar esta sede com outros amores, mas nunca foram suficientes para fazerem com que amasse com tanta intensidade, que me fizessem ser todo amor. Só quando for amor, e amor no Amor de Deus, é que ficarei saciado, porque irei saciar muitos outros com este amor. Não podemos esquecer que saciar a nossa sede exige bastante amor e ninguém tem amor suficiente para satisfazer o amor que precisamos para viver, permanentemente insatisfeitos com o amor que vivemos.
Eu também me sento, hoje, junto ao poço de Jacob, esperando que Tu venhas com essa sede de mim e me peças para beber da minha carestia (carência). A minha pobreza é fonte para ti. Sacias a Tua sede na minha pobreza, nesta profunda indigência de não ser amor. A Tua humanidade sedenta da minha sede, traz-Te por ínvios caminhos e faz-Te passar pelos desertos humanos onde nos perdemos. Não foi por mal, apenas queríamos continuar a beber e não ter tanto para correr. Sim, sou uma Samaritana que corre ao poço, na hora mais quente, esquecido de todas as horas em que Te encontrei dentro de mim. Sou uma Samaritana a quem pedes que Te dê de beber e sempre que Te sentas ao meu lado na vida, estranho a Tua presença. Sento-me neste poço tão fundo e tão difícil de tirar um pouco de água. Daqui já pouco tiro e venho a todas as horas difíceis da vida.
Muitos foram os caminhos que percorri, até desembocar neste imenso deserto de todos os dias procurar saciar a minha sede sem o conseguir. Contigo descobri que não tenho que saciar esta sede, porque seca a vida. Tenho sim que beber nesta sede de vida e bebo onde há mais vida, Naquele que dá a Vida, que é a fonte de Vida e Vida em abundância. Não há outro caminho e se mais alguma vez me sentar junto ao poço de Jacob será apenas para que Tu, pobre peregrino da sede humana, também possas beber um pouco da minha pobreza e eu possa beber na fonte da Vida. Aqui posso beber água limpa e cristalina, na humanidade mais pura e no amor mais profundo.
Graças dou ao Senhor por esta sede, pelo poço onde o encontrei, o íntimo do meu ser, e pela fonte de água Viva que é Ele. Só não sei se deva dar graças por todos os amores perdidos. Por tudo isto é que fui até este poço onde Te encontrei, desencontrado comigo. Sou uma Samaritana que procura água, que procura curar a sua solidão com tantos projetos fracassados, amores enviesados e vontades fragilizadas pela procura de alguém que gostasse de mim. Pelo Teu perdão, Senhor, dou-Te graças. Vieste até mim, sem reprovações ou condenações, fizeste-Te mendigo de mim, para que soubesse que era a Ti que procurava.
Esta é a minha Páscoa, o encontro que preparaste para mim. Ali junto ao poço da minha sede, desta sede que tantas vezes me enganou. Foi ali, no encontro com o meu pecado, a minha desarmonia, a minha solidão que Saíste ao meu encontro para me pedir de beber. Nesta água que bebeste em mim, Senhor, eu soube que era amado e não mais precisava de procurar outra água, apenas viver a minha sede. Nesta sede encontro-Te e encontro água suficiente para saciar muitos outros.
Quem vem hoje ao poço de Jacob para procurar água? Todos! Claro que sim. Voltemos sobretudo o nosso olhar para aqueles que ainda não sabem que é dentro deles que está a fonte de água Viva. Sejamos para eles guias espirituais. Ajudemos os que vivem na superficialidade e, como a Samaritana, esquivam-se a qualquer conversação mais profunda ou definem lemas de vida interessantes, mas nunca suficientes para viverem saciados na insatisfação. Caminhemos lentamente com todos esses. Não para exigir nem para serem nossos, para que sejam deles próprios, da sua sede, da sede de Vida, daquela Vida que só o Senhor nos poderá dar.

Evangelho

Jo 4, 5-42

Naquele tempo,
chegou Jesus a uma cidade da Samaria, chamada Sicar, junto da propriedade que Jacob tinha dado a seu filho José,

onde estava o poço de Jacob.
Jesus, cansado da caminhada, sentou-Se à beira do poço.

Era por volta do meio-dia.
Veio uma mulher da Samaria para tirar água.
Disse-lhe Jesus: «Dá-Me de beber».
Os discípulos tinham ido à cidade comprar alimentos.

Respondeu-Lhe a samaritana:
«Como é que Tu, sendo judeu,
me pedes de beber, sendo eu samaritana?».
De facto, os judeus não se dão com os samaritanos.

Disse-lhe Jesus:
«Se conhecesses o dom de Deus
e quem é Aquele que te diz: ‘Dá-Me de beber’,
tu é que Lhe pedirias e Ele te daria água viva».

Respondeu-Lhe a mulher:
«Senhor, Tu nem sequer tens um balde, e o poço é fundo:

donde Te vem a água viva?
Serás Tu maior do que o nosso pai Jacob,
que nos deu este poço, do qual ele mesmo bebeu,
com os seus filhos e os seus rebanhos?».

Disse-Lhe Jesus:
«Todo aquele que bebe desta água voltará a ter sede.
Mas aquele que beber da água que Eu lhe der
nunca mais terá sede:
a água que Eu lhe der tornar-se-á nele uma nascente
que jorra para a vida eterna».
«Senhor, – suplicou a mulher – dá-me dessa água,
para que eu não sinta mais sede
e não tenha de vir aqui buscá-la».
Disse-lhe Jesus:
«Vai chamar o teu marido e volta aqui».
Respondeu-lhe a mulher:

«Não tenho marido».
Jesus replicou:
«Disseste bem que não tens marido,
pois tiveste cinco,
e aquele que tens agora não é teu marido.
Neste ponto falaste verdade».
Disse-lhe a mulher:
«Senhor, vejo que és profeta.
Os nossos antepassados adoraram neste monte,
e vos dizeis que é em Jerusalém que se deve adorar».

Disse-lhe Jesus:
«Mulher, acredita em Mim:
Vai chegar a hora
em que nem neste monte nem em Jerusalém adorareis o Pai.

Vós adorais o que não conheceis;
nós adoramos o que conhecemos,
porque a salvação vem dos Judeus.
Mas vai chegar a hora – e já́ chegou –
em que os verdadeiros adoradores
hão-de adorar o Pai em espírito e verdade,
pois são esses os adoradores que o Pai deseja.
Deus é espírito,
e os seus adoradores devem adorá-l’O em espírito e verdade».

Disse-Lhe a mulher:
«Eu sei que há-de vir o Messias,
isto é, Aquele que chamam Cristo.

Quando vier, há-de anunciar-nos todas as coisas».

Respondeu-lhe Jesus:
«Sou Eu, que estou a falar contigo».
Nisto, chegaram os discípulos
e ficaram admirados por Ele estar a falar com aquela mulher,

mas nenhum deles Lhe perguntou:
«Que pretendes?», ou então: «Porque falas com ela?».
A mulher deixou a bilha, correu à cidade e falou a todos:

«Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz.
Não será Ele o Messias?».
Eles saíram da cidade e vieram ter com Jesus.
Entretanto, os discípulos insistiam com Ele, dizendo:
«Mestre, come».
Mas Ele respondeu-lhes:
«Eu tenho um alimento para comer que vós não conheceis».

Os discípulos perguntavam uns aos outros:
«Porventura alguém Lhe trouxe de comer?».
Disse-lhes Jesus:
«O meu alimento é fazer a vontade d’Aquele

que Me enviou
e realizar a sua obra.
Não dizeis vós que dentro de quatro meses
chegará o tempo da colheita?
Pois bem, Eu digo-vos:
Erguei os olhos e vede os campos,
que já estão loiros para a ceifa.
Já́ o ceifeiro recebe o salário
e recolhe o fruto para a vida eterna
e, deste modo, se alegra o semeador juntamente com o ceifeiro.

Nisto se verifica o ditado:
‘Um é o que semeia e outro o que ceifa’.
Eu mandei-vos ceifar o que não trabalhastes.
Outros trabalharam e vós aproveitais-vos do seu trabalho».

Muitos samaritanos daquela cidade acreditaram em Jesus,
por causa da palavra da mulher, que testemunhava:
«Ele disse-me tudo o que eu fiz».
Por isso os samaritanos, quando vieram ao encontro de Jesus,

pediram-Lhe que ficasse com eles.
E ficou lá́ dois dias.

Ao ouvi-l’O, muitos acreditaram e diziam à mulher:

«Já́ não é por causa das tuas palavras que acreditamos.

Nós próprios ouvimos
e sabemos que Ele é realmente o Salvador do mundo».

 

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